Lições de viagem
Colônia
A inclusão de Colônia no roteiro desse rápido giro pela Europa deu-se exclusivamente por uma questão geográfica. Considerando os dias disponíveis para a viagem, o desejo de conhecer mais um país, a Alemanha, de rever outro que me agradou bastante em duas estadas anteriores, a Bélgica, antes de chegar ao destino final, Paris, a localização de Colônia fazia dela uma escolha mais indicada do que de outras cidades alemãs até maiores ou mais famosas, tais como Frankfurt e Munique.
Que surpresa agradável!
Colônia, de que eu me lembrava apenas pela lembrança de Wolfgang Overath, um dos maiores jogadores alemães da geração de Franz Beckenbauer e que jogou por quase toda a carreira no time da cidade, mostrou-se uma cidade encantadora, superando com sobras as minhas expectativas, assim como da minha esposa.

Vou me concentrar em alguns aspectos e momentos que considero mais relevantes, como a Idade Média e a Segunda Guerra Mundial.
Um pouco de história
Fundada pelos romanos em 38 a.C. e localizada às margens do rio Reno, a cerca de 600 km de Berlim, Colônia teve sua importância reconhecida por diferentes motivos ao longo da história.
Como alguém que se dedicou ao ensino de História em boa parte da carreira docente, constatei enorme dificuldade dos estudantes em visualizar realidades distintas daquelas que faziam parte do seu dia a dia.
Isso acontecia com frequência quando ministrava aulas sobre aspectos típicos da realidade medieval como a divisão territorial baseada em feudos, nos quais predominavam: o baixo nível da produção, com utilização de instrumentos simples ou rudimentares; primitiva divisão do trabalho; o ato da produção praticamente individual; a produção visando satisfazer as necessidades imediatas da família ou da comunidade local, e não para um mercado mais vasto; sistema de agricultura dominial; o cultivo das terras do senhor feito através de prestação de serviço compulsório; relações servis de produção; detenção condicional da terra; não existência (de fato) da ideia de país ou nação; poucas atividades urbanas; relativa descentralização política; possessão, pelo senhor, de funções judiciais, em relação à população dependente.
O comércio, que já não era intenso nos próprios locais onde ocorria a produção, era ainda mais remoto à distância, sendo restrito às localidades que se destacaram por serem sedes das feiras.
A feira medieval era um grande evento comercial que ocorria na Europa durante a Idade Média reunindo, anualmente, produtores (artesãos, lavradores, criadores), comerciantes e consumidores em um determinado lugar onde as mercadorias eram expostas. As feiras alcançaram seu apogeu nos séculos XII e XIII destacando-se as realizadas na região de Champagne, na atual França, a meio caminho entre Itália e Flandres, e no cruzamento de muitas estradas e vias navegáveis.

As feiras de Champagne duravam de duas a seis semanas e se repetiam até seis vezes ao ano sendo realizadas em várias cidades da região. Sob a proteção dos condes que concediam escoltas armadas aos mercadores, estes trocavam tecidos, peles, sedas, especiarias e produtos exóticos trazidos de Bizâncio. Atraía compradores e distribuidores de diversas regiões da Europa. Os frequentadores gozavam de razoável conforto com garantia de alojamento, alimentação e isenção de impostos, isto é, livre trânsito entre as cidades da região.
O ciclo das grandes feiras de Champagne criou condições favoráveis para o comércio internacional que se estendia ao longo do ano, e favoreceu a transferência de dívidas de uma feira para outra, muitas vezes através de cambistas. A transferência de dívidas de feira para feira, a multiplicidade de moedas utilizadas e o hábito de liquidar dívidas por compensação, levaram ao surgimento de um setor financeiro organizado formado por cambistas e banqueiros.
O declínio das feiras ocorreu a partir do século XIV por diversos motivos como a Guerra dos Cem Anos, a propagação da Peste Negra e, principalmente pelo aparecimento do mercador sedentário que irá substituir o comerciante viajante.
Na Idade Média, o comércio não foi a principal razão do destaque de Colônia, e sim o fato dela ter se transformado em local de peregrinação, graças, principalmente ao início da construção de sua imponente catedral, que será objeto de relato mais detalhado adiante.
A importância de se hospedar num local estratégico
Se em Berlim eu e minha esposa nos hospedamos num hotel situado fora dos principais pontos de atração da cidade, em Colônia nós ficamos no Maritim, um hotel que além de ter excelentes instalações, situava-se no Alter Markt (Mercado Velho), no coração da cidade, uma praça histórica que serve como um centro vibrante para os habitantes locais e turistas.

As origens de Alter Markt remontam ao século IX, quando serviu como um importante mercado para comerciantes de toda a Europa. A sua localização estratégica, nas margens do rio Reno, tornava-o um posto de comércio ideal. Com o passar do tempo, esta área tornou-se num importante centro comercial, onde se realizavam feiras e mercados.
Para além de ser um mercado próspero, Alter Markt era também conhecido como “Fórum” ou “Assembleia”, onde se realizavam assembleias políticas durante a época medieval. A Rathaus Turm (Câmara Municipal), de estilo gótico, com sua torre icônica, que hoje confina com um dos lados da praça, foi construída na década de 1330, o que faz dela a câmara municipal mais antiga da Alemanha ainda em utilização.
O Alter Markt de hoje em dia exala uma energia que atrai tanto os habitantes locais como os visitantes durante todo o ano. É palco de inúmeros eventos como o Carnaval de Colônia, um dos maiores festivais de rua da Europa.
A praça está repleta de restaurantes que oferecem culinárias de diversos países. Para os que não abrem mão das compras, há inúmeras boutiques e lojas que vendem de tudo, de roupas a antiguidades, passando por artesanato e lembranças. A área também possui vários museus, como o Museu da Fragrância Farina-House, onde se pode aprender sobre a história da Água de Colônia e, não muito distante, o Museu do Chocolate.
A Catedral de Colônia, uma atração à parte
A poucos minutos do Alter Markt e ao lado da movimentadíssima estação de trem, ergue-se a Catedral de Colônia (Kölner Dom), igreja católica de estilo gótico, o marco principal da cidade e seu símbolo não oficial.
É a quinta igreja mais alta do mundo e foi classificada como patrimônio da humanidade em 1996. Atrai seis milhões de turistas por ano − número equivalente ao total de turistas que visitaram o Brasil durante vários anos −, sendo o ponto turístico mais visitado da Alemanha.

Sua história se inicia em 1164, quando o imperador alemão Frederico Barba Ruiva saqueou Milão, transferindo para a cidade de Colônia os supostos restos mortais dos Três Reis Magos: Baltazar, Melchior e Gaspar. Colônia, com isso, transformou-se em local de peregrinação.
A catedral-símbolo de Colônia foi construída entre 1248 e 1473, sendo expandida entre 1842 e 1880. Na Segunda Guerra Mundial, a catedral acabou recebendo 14 ataques por parte de bombas aéreas e não caiu; a reconstrução foi completada em 1956 e, desde então, está em constante manutenção. Com mais de 157 m de altura, 144 m de comprimento e 86 m de largura, domina a visão de qualquer ponto da cidade. Entre suas várias relíquias estão as estátuas dos Reis Magos e os vitrais de várias épocas, como os que contam a história da Bíblia, de 1265.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os moradores cobriram a parte interna da catedral com lençóis e cobertores e acenderam fogueiras para mantê-la aquecida. O objetivo era evitar que os bombardeios provocassem sua implosão.
A Segunda Guerra e seu impacto
Antes do início da Segunda Guerra Mundial, Colônia era a quarta maior cidade da Alemanha e a principal cidade localizada às margens do rio Reno, com cerca de 770.000 habitantes. Durante o conflito, ocorreram eventos em Colônia que ainda causam impacto. A cidade foi alvo de intensos bombardeios pela Royal Air Force (RAF), sofrendo 262 ataques aéreos, como resposta ao bombardeio de Londres, uma decisão tomada pelo comando militar britânico. Colônia tinha grande importância militar, com sua forte industrialização e diversas fábricas que produziam materiais de guerra, além de uma extensa malha ferroviária para transporte de tropas e armamentos. No total, foram lançadas 34.711 toneladas de bombas na cidade, com o último ataque aéreo registrado em 2 de março de 1945.
No início daquele mês, a maior parte de Colônia estava em ruínas, e sua população havia diminuído para cerca de 20.000 habitantes. O primeiro bombardeio ocorreu em maio de 1940, quando 868 aviões britânicos lançaram 1.500 toneladas de explosivos, dos quais dois terços eram bombas incendiárias. Os ataques atingiram áreas residenciais, destruindo 13 mil casas e danificando outras 28 mil. Edifícios históricos dos séculos XVIII e XIX, incluindo palácios, prédios e igrejas, foram completamente devastados. No entanto, a famosa Catedral de Colônia resistiu aos ataques.
Em 1945, a cidade foi invadida pelas forças aliadas, protagonizando uma das batalhas decisivas daquele período. As forças aliadas cercaram Colônia por três direções e em 6 de março as forças americanas alcançaram o centro da cidade. Foi então que a famosa Batalha de Tanques de Colônia aconteceu, com os tanques Panther e Pershing duelando em frente à Catedral. Esse foi um dos últimos eventos de grande escala na Alemanha em 1945, e a queda de Colônia simbolizou o colapso do regime nazista.
Lembrança boa
Como afirmei no início do artigo, é muito bom quando uma visita a qualquer localidade transforma-se numa surpresa agradável.
Constatar a recuperação de uma cidade que teve aproximadamente 90% de seu território destruído ao fim da Segunda Guerra Mundial para se tornar um local vibrante é realmente uma experiência notável.
A população de Colônia só voltou a atingir os números pré-guerra em 1970. Contribuiu para tanto a elevada quantidade de imigrantes que se deslocou para a cidade nas últimas décadas, em especial de descendência turca. Em 2010, a cidade alcançou um milhão de habitantes.
Por todas essas razões, foi com uma sensação muito favorável que deixamos Colônia em direção a Bruxelas.
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