Inteligência Partidária e os dados a serviço da boa política[1]

Partidos que decidem com base em dados gastam melhor, elegem mais e se tornam instituições mais perenes. Assim como a inteligência de mercado transformou a gestão das empresas, a inteligência partidária pode transformar a gestão dos partidos políticos brasileiros.

Ainda hoje, boa parte das decisões partidárias no país, como onde lançar candidatos, quanto destinar a cada campanha e em quais municípios investir, se apoia em intuição e em relações pessoais. Esses elementos têm valor, mas não bastam quando as campanhas são financiadas majoritariamente com dinheiro público e o eleitorado está cada vez mais fragmentado.

Da inteligência de mercado à inteligência partidária

No setor privado, nenhuma empresa bem gerida investe sem perguntar quanto custa conquistar um cliente e quanto ele devolve em receita. Varejistas escolhem onde abrir lojas com base em geomarketing, redes de franquia comparam o desempenho de cada unidade e áreas comerciais realocam verba para os canais que convertem mais.

A inteligência partidária segue a mesma lógica. O cliente é o eleitor, a venda é o voto, o faturamento é a representação conquistada e o orçamento de marketing são os fundos Partidário e Eleitoral. O ponto de venda é o território: o município, a zona e a seção eleitoral. A finalidade é outra, representar bem a sociedade e não gerar lucro, mas o método de medir, comparar e realocar é o mesmo.

O que ela faz na prática

O ponto de partida é o custo por voto. Dividir o gasto declarado de cada candidatura pelos votos obtidos mostra onde o recurso rendeu e onde se perdeu; candidatos com custos muito diferentes, disputando o mesmo cargo na mesma região, dizem muito sobre a eficiência do partido. O indicador não deve ser usado isoladamente, já que um estreante ou uma região mais cara naturalmente exigem mais, mas é a base de qualquer discussão séria sobre o gasto.

A esse número soma-se o mapa. Com geoprocessamento e dados por zona e seção eleitoral, o partido enxerga seus redutos, as áreas em crescimento e os territórios onde nunca chegou e, cruzando essas informações com dados socioeconômicos, entende quem vota nele. Isso permite identificar onde um real a mais tem mais chance de virar cadeira, escolher candidatos com base em capilaridade e histórico e montar chapas proporcionais com nomes que somam votos em territórios complementares, uma decisão crucial num sistema em que o quociente partidário define o tamanho da bancada. Fechado o pleito, a mesma base sustenta uma avaliação sistemática do que funcionou, para que o partido aprenda de um ciclo para o outro em vez de recomeçar do zero.

A experiência internacional

O caso mais estudado é o da campanha de reeleição de Barack Obama, em 2012. Uma equipe de 54 analistas de dados funcionava como consultoria interna da campanha, atribuindo a cada eleitor uma probabilidade de votar e de apoiar o candidato e ouvindo cerca de 9 mil eleitores por noite para medir a reação às ações de campanha. Um sistema cruzava os preços dos anúncios de TV com o perfil da audiência e encontrou espaços mais baratos, capazes de alcançar eleitores ignorados pelas campanhas tradicionais. Era inteligência de mercado aplicada ao voto.

Mais relevante para os partidos, porém, é o que permanece depois das campanhas. Nos Estados Unidos, republicanos e democratas mantêm bases nacionais de dados eleitorais, atualizadas continuamente e compartilhadas com candidatos do nível municipal ao federal. A estrutura republicana, criada em 2011, afirma ter apoiado mais de 5 mil campanhas somente no ciclo de 2024. Ali, os dados são um ativo do partido, e não de cada candidato.

No Reino Unido, os Conservadores venceram em 2015 com uma estratégia que priorizou convencer repetidamente um grupo restrito de indecisos nas cadeiras mais disputadas, em vez de buscar volume de contatos. Suas projeções internas indicavam maioria quando as pesquisas públicas apontavam disputa equilibrada, o que prova o valor de ter números próprios e de concentrar recursos onde o voto marginal decide.

Há também o exemplo do que não fazer. No caso Cambridge Analytica, dados de até 87 milhões de usuários do Facebook foram coletados sem consentimento e usados para fins políticos, gerando punições e um dano reputacional duradouro. A fronteira entre inteligência e manipulação está na origem lícita dos dados, na transparência e no respeito ao eleitor.

A oportunidade brasileira

No Brasil, a inteligência partidária é, antes de tudo, uma questão de responsabilidade com o dinheiro público. Nas eleições de 2026, o Fundo Eleitoral distribuiu cerca de R$ 4,96 bilhões entre 30 partidos; somado ao Fundo Partidário, o volume de recursos públicos à disposição das legendas ultrapassa R$ 6,3 bilhões no ano. E, como a divisão desses fundos depende sobretudo dos votos e das bancadas conquistados, gastar bem hoje significa ter mais recursos e mais estrutura no ciclo seguinte.

O país dispõe ainda de uma matéria-prima rara. A Justiça Eleitoral publica, a cada eleição, os resultados por seção, o perfil do eleitorado por zona, as receitas e despesas de cada candidatura e a localização dos locais de votação, enquanto o IBGE oferece renda, escolaridade e demografia em detalhe territorial. Poucos países permitem calcular, apenas com dados públicos, o custo por voto de cada candidato e mapear sua votação rua a rua.

O que falta não é dado, e sim método e continuidade. Em geral, cada candidatura contrata sua própria consultoria, e o conhecimento produzido vai embora com ela ao fim da eleição. Um núcleo permanente de inteligência, enxuto e formado por economistas, estatísticos e analistas de geoprocessamento, resolveria esse problema a um custo mínimo diante do que um partido movimenta por eleição. Ele serviria à direção nacional na definição de prioridades, aos diretórios estaduais e municipais na escolha de territórios e na montagem de chapas, e aos candidatos filiados na hora de decidir onde e como gastar.

Esse trabalho precisa respeitar limites claros. As regras do TSE e a Lei Geral de Proteção de Dados exigem finalidade definida no tratamento de dados pessoais, consentimento expresso para dados sensíveis, registro das operações e aviso explícito no uso de inteligência artificial. Por isso, o núcleo deve se apoiar sobretudo em dados públicos e agregados por território, com governança e transparência, o que reforça, e não ameaça, a conformidade do partido.

Conclusão

As empresas que sobrevivem por décadas são as que aprenderam a medir, comparar e corrigir; com os partidos não é diferente. A inteligência partidária é um caminho de perenidade, porque transforma o aprendizado de cada eleição em patrimônio da instituição; de profissionalização, porque substitui o improviso por método; e de qualidade da representação, porque partidos mais bem geridos tendem a oferecer quadros mais preparados e mandatos mais conectados com quem os elegeu. Decidir com base em dados não esvazia a política. Dá a ela mais responsabilidade.

 

Referências

 

 

* Rodrigo Simões é economista, contador, professor universitário, relações públicas e diretor do Núcleo de Estudos Econômicos da Faculdade do Comércio, membro do Comitê de Conjuntura Econômica da ACSP e possui passagens como executivo no setor varejista, educacional, franquias e terceiro setor, liderando áreas financeira e de inteligência de mercado.

 

 

[1] Artigo escrito em parceria com Rodrigo Simões*.