Lições de viagem: Berlim

Com o objetivo de acompanhar a participação do meu filho como percussionista no show de comemoração dos 30 anos do álbum Holy Land da banda Angra, dia 23 de setembro, na famosa casa de espetáculos Olympia, em Paris, decidi fazer uma rápida viagem à Europa com minha esposa, passando antes pela Alemanha e pela Bélgica.

Na Alemanha, quadragésimo país que tive a oportunidade de conhecer, passei por Berlim e Colônia, sendo cada uma delas objeto de um artigo na série intitulada Lições de viagem[1].

Histórico

A história de Berlim remonta ao século XII, embora as menções à cidade se intensifiquem no século XIII (mais precisamente a partir de 1230), com a união dos vilarejos de Cölln e Berlim, às margens do rio Spree.

Em 1415, a família Hohenzollern assume o poder e faz de Berlim a capital de Brandemburgo. Quase três séculos depois, em 1701 Berlim torna-se a capital do Reino da Prússia, ampliando sua importância arquitetônica e militar. A partir daí, Berlim foi  sucessivamente a capital do Império Alemão (1871 a 1918), da República de Weimar (1919 a 1933) e, quando Adolf Hitler assume o poder em 1933, torna-se a sede do Terceiro Reich e centro do regime nazista.

Tropas soviéticas cercaram e tomaram a capital alemã em maio de 1945, resultando no fim do Terceiro Reich na Europa. A Segunda Guerra Mundial deixou como herança a devastação de grande parte de Berlim, por meio de intensos bombardeios.

Com a vitória dos Aliados na Segunda Guerra, Berlim foi dividida em quatro setores de ocupação (soviético, americano, britânico e francês). Logo em seguida, inicia-se o afastamento da União Soviética dos outros países que estiveram lado a lado no combate às forças do Eixo: Alemanha, Itália e Japão.

A União Soviética passa a partir de então a ampliar sua área de influência, estendendo seus tentáculos para países da Europa Central e Oriental, no que ficou conhecido como Cortina de Ferro.

Uma das cidades mais diretamente afetadas foi Berlim. O setor ocidental da cidade formou um enclave capitalista encravado inteiramente dentro da zona de influência soviética (futura Alemanha Oriental). A situação se agrava em 1948, com o fechamento das vias de acesso terrestre a Berlim Ocidental, para expulsar os aliados do Ocidente. Os Estados Unidos e seus aliados abasteceram a cidade com alimentos e carvão por aviões durante quase um ano até os soviéticos recuarem.

A divisão consolidou a criação da República Federal da Alemanha (RFA, no oeste, cuja capital era Bonn) e da República Democrática Alemã (RDA, no leste, cuja capital era Berlim). 

Milhares de cidadãos da Alemanha Oriental cruzavam para Berlim Ocidental em busca de liberdade e melhores condições de vida. Moscou exigiu a retirada das tropas ocidentais da cidade, aumentando a tensão militar entre os Estados Unidos e a União Soviética. 

Em 13 de agosto de 1961, o governo da Alemanha Oriental iniciou a construção de uma barreira de arame farpado e concreto para separar o lado oriental socialista do ocidental capitalista. O Muro de Berlim se tornou, assim, o símbolo máximo da Cortina de Ferro.

Em 1989, manifestações populares  levam à queda do Muro de Berlim no dia 9 de novembro, eliminando o principal símbolo da Guerra Fria. Com a reunificação da Alemanha em 1990, a cidade de Berlim recuperou seu status de capital da República Federal da Alemanha.

Atualidade

A cidade se reinventou como um polo multicultural, jovem e de grande relevância política e artística na Europa.

Com uma população de 3,5 milhões de habitantes dentro dos limites da cidade, é a maior cidade da Alemanha e a sétima área urbana mais povoada da União Europeia. Localizada na grande planície europeia, Berlim possui um clima temperado sazonal, com cerca de um terço da área da cidade composta por florestas, parques, jardins, rios e lagos.

Berlim é uma cidade global e um dos mais influentes centros mundiais de cultura, política, mídia e ciência. Sua economia é baseada principalmente no setor de serviços, abrangendo uma variada gama de empresas criativas, corporações de mídia e locais de convenções. Berlim também serve como um hub continental para o transporte aéreo e ferroviário, além de atrair um considerável fluxo de turistas. Afora o setor de serviços, Berlim sedia importantes indústrias nas áreas de tecnologia da informação (TI), farmacêutica, engenharia biomédica, biotecnologia, eletrônica, engenharia de tráfego e energia renovável.

Impossível não perceber algumas características importantes da cidade, a começar por ser sede de algumas das mais importantes universidades, eventos esportivos, orquestras e museus. A arquitetura revela uma alternância entre prédios moderníssimos com edificações antigas, sendo notória a existência de um grande número de obras tanto de infraestrutura como de edificações, em parte como decorrência da reconstrução determinada pelo processo de unificação. Também é perceptível o legado de um passado tão turbulento no Memorial do Holocausto, lembrando os 6 milhões de judeus exterminados pelos nazistas e nas ruínas do Muro de Berlim, repletas de grafites. Usado como divisão de fronteiras durante a Guerra Fria, o Portão de Brandemburgo, construído no século XVIII, tornou-se um símbolo da reunificação.

Contudo, Berlim se notabiliza por um comércio ativo, pela existência de enorme quantidade de restaurantes e bares que contemplam culinárias de diversas partes do mundo e uma vibrante vida noturna.

Fundações (Stiftungs)

Alguém, como eu, que se interessa pela atividade política, não pode deixar de notar também a existência e a importância de think tanks com e sem ligação com partidos políticos.

Um exemplo notável desvinculado dos partidos é a Fundação Willy Brandt (BWBS). Criada em 1994 por lei do Bundestag alemão, como uma fundação federal de direito público tem por missão “preservar a memória do trabalho de Willy Brandt pela liberdade, paz e unidade do povo alemão e pela salvaguarda da democracia na Europa e no Terceiro Mundo, pela unificação da Europa e pela compreensão e reconciliação entre as nações, bem como pelo diálogo Norte-Sul, e assim  contribuir para a compreensão da história do século XX e o desenvolvimento da República Federal da Alemanha”. O trabalho da fundação concentra-se na pesquisa histórica e na educação histórico-política. A sede da fundação fica em Berlim, com escritórios regionais em Lubeck, cidade natal de Willy Brandt , e em Unkel, onde o laureado com o Prêmio Nobel da Paz faleceu em 8 de outubro de 1992.

Além dela, as sete fundações (stiftungs) políticas alemãs e suas respectivas ligações partidárias são:

  • Fundação Friedrich Ebert (FES): próxima ao Partido Social-Democrata (SPD), sendo a mais antiga do país (fundada em 1925).
  • Fundação Konrad Adenauer (KAS): próxima à União Democrata-Cristã (CDU).
  • Fundação Hanns Seidel (HSS): próxima à União Social-Cristã (CSU), partido aliado da CDU na Baviera.
  • Fundação Friedrich Naumann (FNF): próxima ao Partido Democrático Liberal (FDP).
  • Fundação Heinrich Böll (HBS): próxima ao partido Aliança 90/Os Verdes (Bündnis 90/Die Grünen).
  • Fundação Rosa Luxemburgo (RLS): próxima ao partido de esquerda Die Linke.
  • Fundação Desidério Erasmo (DES): próxima ao partido Alternativa para a Alemanha (AfD).

 

[1] Iniciada despretensiosamente anos atrás, a série relata lições aprendidas nas seguintes localidades: Londres, Paris, Roma, Assunção, Bogotá, Chile e Argentina, Belém, Maranhão, Curitiba, São Roque e Vitória.