O Brasil pode mais. Muito mais − e precisa voltar a discutir o desenvolvimento[1]

Há uma contradição incômoda no Brasil contemporâneo. Somos uma das maiores economias do mundo, dispomos de território continental, recursos naturais abundantes, mercado interno expressivo, universidades e centros de pesquisa de excelência e uma sociedade dotada de extraordinária capacidade criativa. Ainda assim, continuamos presos às características essenciais do subdesenvolvimento: baixa produtividade, profundas desigualdades sociais e regionais, serviços públicos de qualidade muito desigual, infraestrutura insuficiente, baixa capacidade de inovação em larga escala e dificuldade recorrente de transformar potencial econômico em prosperidade compartilhada.

Talvez o problema mais grave, porém, seja outro. O Brasil parece ter perdido a capacidade de conversar seriamente sobre o futuro. Há muito deixamos de organizar o debate público em torno de um projeto nacional de desenvolvimento capaz de atravessar governos, articular prioridades e oferecer alguma coerência de longo prazo às escolhas coletivas. Isso não significa defender a volta de um planejamento centralizador, muito menos imaginar que o desenvolvimento possa ser produzido por decreto. Um projeto nacional é, antes de tudo, um horizonte compartilhado: uma pactuação mínima em torno de produtividade, estabilidade macroeconômica, educação, infraestrutura, inovação, sustentabilidade, inserção internacional, redução das desigualdades e fortalecimento institucional.

Em seu lugar, acumulamos urgências. A política econômica é frequentemente capturada pelo curto prazo; o Estado brasileiro se mostra hipertrofiado em determinadas funções e insuficiente em outras; políticas públicas são criadas, interrompidas e recriadas com baixa continuidade; regras e instituições tornam-se, com demasiada frequência, parte da própria disputa política. Não se trata simplesmente de termos “Estado demais” ou “Estado de menos”. O problema central é a qualidade do Estado: sua capacidade de escolher prioridades, coordenar ações, avaliar resultados, garantir segurança institucional e converter recursos públicos em capacidades que ampliem a produtividade e o bem-estar da sociedade.

Ao mesmo tempo, deteriorou-se a qualidade do debate político e econômico. Temas complexos são reduzidos a palavras de ordem; divergências técnicas são rapidamente convertidas em identidades ideológicas; evidências cedem espaço às narrativas; e políticas públicas passam a ser julgadas muitas vezes mais por quem as propõe do que por seus custos, incentivos, resultados e consequências distributivas. Num ambiente assim, o país perde algo essencial ao desenvolvimento: a possibilidade de aprender coletivamente com seus próprios erros.

Esse diagnóstico não pertence a um partido, a um governo ou a um campo ideológico. O subdesenvolvimento brasileiro é uma construção histórica, produzida por escolhas acumuladas ao longo de décadas. Houve avanços importantes e houve retrocessos sob diferentes governos. O que importa reconhecer é que, sem recuperar a capacidade de discutir escolhas econômicas de forma madura, plural e informada, continuaremos administrando sintomas sem enfrentar as estruturas que os reproduzem.

O economista precisa recuperar sua voz no espaço público

É precisamente nesse ponto que a figura do economista precisa ser recolocada no debate público. Economia não é uma ciência destinada apenas a interpretar indicadores, elaborar projeções ou acompanhar mercados. Sua tarefa fundamental é compreender como indivíduos, empresas, governos e instituições fazem escolhas diante de recursos escassos, incentivos, restrições e incertezas — e quais consequências essas escolhas produzem sobre crescimento, distribuição de renda, emprego, produtividade e bem-estar.

O economista, por formação, é chamado a lidar com escolhas difíceis. Toda política tem custos; todo recurso empregado numa finalidade deixa de ser empregado em outra; incentivos alteram comportamentos; boas intenções não garantem bons resultados; e medidas populistas no curto prazo podem gerar efeitos indesejáveis no futuro. Recuperar a voz pública do economista, portanto, não significa substituir a política pela tecnocracia, nem atribuir a uma profissão o monopólio das decisões coletivas. Significa qualificar a política com evidências, explicitar custos de oportunidade, comparar alternativas e ajudar a sociedade a compreender as consequências das escolhas que realiza.

Foi diante desse desafio que surgiu o Instituto de Inteligência Econômica (IIE), um think tank sem vinculação político-partidária e de caráter plural, reunindo profissionais com experiências e visões distintas, provenientes da academia, da iniciativa privada e da vida pública. Sua razão de ser está justamente em fomentar, produzir e disseminar conhecimento sobre os problemas relevantes da economia brasileira, contribuindo para que o economista volte a ocupar o espaço que historicamente lhe cabe na discussão sobre políticas públicas e desenvolvimento.

Pluralidade, aqui, não é ausência de convicções. É a disposição de submetê-las ao confronto de argumentos e evidências. Num país em que o debate público se tornou excessivamente polarizado, recuperar esse espírito é parte da própria reconstrução institucional de que necessitamos.

Do legado dos pensadores aos problemas do presente

Esse propósito já estava presente em uma iniciativa editorial anterior do IIE, a obra Pensadores da Economia Brasileira. O livro recuperou a contribuição de 28 personalidades que ajudaram a construir a história do pensamento econômico no País. Mais do que um exercício de memória, tratava-se de recordar que as políticas econômicas nunca nascem num vazio intelectual: elas carregam interpretações sobre o Estado, o mercado, o desenvolvimento, a moeda, a inflação, a distribuição de renda e o lugar do Brasil no mundo.

A propósito, John Maynard Keynes encerrou a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, sua obra magna, com uma advertência que atravessou gerações: “os homens práticos, que se imaginam livres de influências intelectuais, são frequentemente ‘escravos de algum economista do passado’”. A frase é provocativa porque revela algo elementar. Mesmo quando não percebemos, pensamos e decidimos a partir de ideias herdadas. A questão, então, não é saber se ideias econômicas influenciarão as políticas públicas, mas quais ideias o farão, com que qualidade e sob qual escrutínio.

O Brasil pode mais. Muito mais… procura dar continuidade a esse movimento, deslocando o olhar do legado intelectual para os desafios do presente e do futuro. Organizada por Luiz Alberto Machado e publicada pela Scriptum Editorial, a coletânea reúne economistas de diferentes trajetórias em torno de problemas concretos da sociedade brasileira. Mais do que resgatar o protagonismo do economista num cenário político e econômico desafiador, no Brasil e no mundo, a obra pretende estimular uma nova geração de profissionais disposta a participar do espaço público com preparo técnico, independência intelectual e abertura ao contraditório.

É nesse contexto que, em 13 de agosto, por ocasião das comemorações do Dia do Economista, o IIE realiza o lançamento da obra em São Paulo. O título é deliberadamente afirmativo. Dizer que o Brasil pode mais não é negar a dimensão de seus problemas; é rejeitar a ideia de que nosso desempenho medíocre seja uma fatalidade.

Dois desafios brasileiros: Amazônia e economia criativa

A amplitude da agenda proposta pelo livro pode ser percebida em dois temas aparentemente distantes, mas profundamente conectados pela questão do desenvolvimento: a Amazônia e a economia criativa.

A Amazônia, como enfatiza o economista amazônida Eduardo Costa, talvez seja a expressão mais contundente de uma contradição brasileira. A região reúne extraordinário patrimônio ambiental, recursos naturais estratégicos, diversidade biológica, conhecimento tradicional e uma posição geopolítica cada vez mais relevante. No entanto, historicamente, o dinamismo associado à exploração de suas riquezas não se converteu, na mesma proporção, em diversificação produtiva, capacidades locais, inclusão social e melhoria duradoura da qualidade de vida de sua população.

O desafio amazônico, portanto, não pode ser reduzido à falsa escolha entre desenvolver e preservar. O verdadeiro problema é construir instituições capazes de transformar a riqueza regional em desenvolvimento sustentável, articulando infraestrutura, ciência e tecnologia, educação, inovação, agregação de valor, conservação ambiental e fortalecimento das capacidades locais. A Amazônia precisa deixar de ser percebida apenas como fronteira de recursos ou como ativo ambiental externo à vida de seus habitantes. Ela deve ocupar posição central em qualquer projeto nacional de desenvolvimento digno desse nome. O Brasil não resolverá sua questão regional − nem formulará uma estratégia consistente para o século XXI − sem resolver a questão amazônica.

A economia criativa coloca o mesmo problema sob outra perspectiva. Como observa o economista paulista Luiz Alberto Machado em seu capítulo, o País dispõe de expressiva capacidade criativa e cultural, com potencial para gerar produção, emprego, renda, inovação e inclusão. Cultura, design, audiovisual, tecnologia, conteúdo digital e outras atividades baseadas no conhecimento e em ativos intangíveis já ocupam espaço crescente na economia contemporânea. Para o Brasil, marcado por diversidade cultural e grande mercado interno, trata-se de uma oportunidade particularmente relevante.

Potencial, entretanto, não é destino. A economia criativa brasileira enfrenta obstáculos semelhantes aos que limitam outros segmentos: governança errática, descontinuidade de políticas públicas, dificuldades de financiamento, formação insuficiente, baixa coordenação institucional e fragilidades na transformação de criatividade em negócios escaláveis e sustentáveis. O que está em jogo é criar um ambiente no qual talento, conhecimento, empreendedorismo e inovação possam se converter em produtividade e oportunidades.

A Amazônia e a economia criativa mostram, cada uma a seu modo, que desenvolvimento não decorre automaticamente da existência de recursos. Florestas, minerais, diversidade cultural, talento, conhecimento ou mercados constituem possibilidades. Para que se transformem em prosperidade, são necessárias instituições, incentivos adequados, coordenação, investimento, continuidade e capacidade de aprendizado. É justamente aí que a qualidade das escolhas públicas se torna decisiva.

As escolhas de hoje e o país de amanhã

O subdesenvolvimento é experimentado na vida individual, na renda insuficiente, na educação precária, nas oportunidades estreitas, no emprego de baixa produtividade. Sua persistência, contudo, é sobretudo um fenômeno coletivo. Ela se materializa em instituições, regras, organizações e padrões de comportamento que carregam escolhas feitas no passado e que são reiteradas, reformadas ou abandonadas no presente.

Instituições criam incentivos e distribuem oportunidades. Quando persistem por longos períodos, produzem dependência de trajetória: as decisões pretéritas delimitam o conjunto de alternativas disponíveis hoje e tornam algumas mudanças mais difíceis do que outras. Mas condicionamento não é destino. A história pesa sobre o presente; não o determina mecanicamente.

É por isso que superar o subdesenvolvimento pressupõe fazer escolhas novas; e, em muitos casos, escolhas diferentes das que nos trouxeram até aqui. Exige abandonar soluções fáceis para problemas complexos, reconstruir confiança, aprimorar instituições, estabelecer prioridades e aceitar que desenvolvimento é um processo de longo prazo. Sobretudo, exige voltar a debater seriamente o País.

Nesse esforço, nenhuma profissão está mais diretamente preparada para instrumentalizar o debate sobre as escolhas econômicas do que a do economista. Isso não nos concede infalibilidade, economistas divergem, erram e partem de referenciais distintos. É exatamente por isso que a pluralidade importa. O bom debate econômico não elimina o dissenso; ele o torna produtivo. 

O Brasil pode mais. Muito mais… é uma contribuição a esse propósito e, ao mesmo tempo, um convite. Um convite à leitura, ao contraditório e à recuperação de uma conversa pública em que ideias voltem a ser enfrentadas por ideias, evidências por evidências e propostas por suas consequências. Se o futuro é condicionado pelas escolhas que fazemos no presente, discutir melhor essas escolhas talvez seja o primeiro passo para construirmos um país diferente daquele que nossa trajetória parece insistir em reproduzir.

 

Referências 

KEYNES, John Maynard. Teoria geral do emprego, do juro e da moeda. São Paulo: Editora Saraiva, 2012. (Coleção Clássicos da Economia)

MACHADO, Luiz Alberto (editor). O Brasil pode mais. Muito mais… São Paulo: Scriptum Editorial, 2026.

TROSTER, Roberto Luis; MACHADO, Luiz Alberto (editores). Pensadores da Economia Brasileira. Rio de Janeiro: Processo, 2025.

 

[1] Artigo escrito em parceria com o Prof. Eduardo José Monteiro da Costa*

* Eduardo José Monteiro da Costa é economista pela Universidade Federal do Pará, mestre e doutor em Economia pela Unicamp, professor titular da UFPA. E-mail: ejmcosta@ufpa.br.