‘Querem nos matar’
Em julho de 2023, em sua coluna no jornal O Estado de S. Paulo, Mario Vargas Llosa se referiu ao livro Nos quieren muertos, de Javier Moro, cujo subtítulo é El sacrificio de un hombre, la lucha de una familia, la conciencia de un país.

Assim que li a matéria, saí em busca do referido livro, não só pela descrição do magistral escritor peruano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, mas também por Javier Moro, de quem eu já li outros excelentes livros, entre os quais Paixão Índia, O sári vermelho, As montanhas de Buda, Caminhos de liberdade, Meu pecado, Meia-noite em Bhopal e Um arco-íris na noite, os dois últimos em parceria com Dominique Lapierre.



Javier Moro, assim como Dominique Lapierre, que durante muito tempo foi parceiro de Larry Collins, são escritores e jornalistas que têm a capacidade de fazer a história compreensível, atendo-se aos fatos, mas redigindo de forma bastante agradável e transformando biografias e eventos geopolíticos em romances com ritmo de suspense.
Em minha busca, constatei que o livro não fora traduzido para o português e a edição em espanhol era extremante cara. Diante disso, passei a aguardar a tradução do livro para o nosso idioma, coisa que não aconteceu até hoje. Recentemente, porém, constatei que a edição em espanhol estava sendo oferecida por um preço bem mais acessível e, como não tenho dificuldade de ler nesse idioma, resolvi adquiri-la e enfrentar o desafio de mergulhar em suas 571 páginas.
E não me arrependo. Muito pelo contrário. A leitura me permitiu conhecer detalhes da degringolada recente do primeiro país estrangeiro que tive oportunidade de visitar no longínquo ano de 1968.
O personagem central do livro é Leopoldo López, que dirigiu um grande partido político de oposição a Hugo Chávez e Nicolás Maduro, foi prefeito bem-sucedido do município de Chacao, cidade da Região Metropolitana de Caracas, por dois mandatos consecutivos entre 2000 e 2008 e acabou acusado pelos governos ditatoriais de ter provocado algumas mortes durante manifestações antigoverno.
No início de fevereiro de 2014, depois de liderar as maiores manifestações de protesto na história da Venezuela contra o regime de Nicolás Maduro, o jovem político se viu diante da decisão mais difícil de sua vida: abandonar o país e seguir a luta do exterior ou permanecer em Caracas até que fosse detido. Devia decidir entre a liberdade ou a cadeia. Decidiu sacrificar sua cômoda vida familiar e entregar-se. Em 18 de fevereiro, López entregou-se à Guarda Nacional na presença de milhares de apoiadores que o aclamavam e que, como ele, vestiam branco como símbolo da não violência. Ao fazer o que ninguém esperava, converteu-se em herói.
A partir desse momento, Maduro o submeteu a diversas atrocidades na prisão militar de Ramo Verde, onde permaneceu por vários anos. López suportou a situação mostrando enorme dose de coragem e resiliência, até que lhe foi concedida a prisão domiciliar.
Enquanto isso, sua mulher, Lilian Tintori, uma empresária de sucesso que levava uma vida um tanto afastada da política, foi se transformando na autêntica representante da oposição a Maduro. Obrigada a camuflar a realidade para seus filhos, percorreu o planeta, sendo recebida por chefes de Estado, pelo papa e por organismos multilaterais na tentativa de obter a libertação de seu marido e de outros presos políticos venezuelanos.
Em suas contínuas ações em defesa do marido, Lilian Tintori recebeu o apoio incondicional de seus sogros que não mediram esforços para ajudá-la tanto na Venezuela como na Espanha, para onde o pai do jovem político havia se mudado diante da iminência de também ser preso.
Paralelamente ao drama da família de Leopoldo López, o livro discorre sobre a deterioração socioeconômica da Venezuela, país que chegou a ser considerado o mais rico da América Latina − em grande parte graças ao petróleo − e que, sob os governos ditatoriais de Chávez e Maduro, afundou na ruína e no desastre. Em consequência desse empobrecimento, cerca de 7,7 a 8 milhões de venezuelanos, o que corresponde a aproximadamente um quarto da população total, deixaram o país, espalhando-se pelo mundo em busca de trabalho e de melhores condições de vida.
O livro de Moro perpassa também pela ação de outros líderes da oposição a Maduro, tais como Hugo Capriles, Juan Guaidó e Corina Machado, que, em diferentes momentos, se constituíram em ameaçadoras opções eleitorais à continuidade da ditadura. Nessas ocasiões, Maduro alterou datas de eleições, manipulou resultados das que se realizaram e/ou baixou medidas impedindo a efetivação dessas candidaturas.
Durante o tempo em que esteve sob prisão domiciliar, Leopoldo López sofreu uma série de humilhações e ameaças de nova prisão. Finalmente, López se asilou na embaixada espanhola. Depois de vários meses, fugiu em circunstâncias pitorescas num episódio narrado com profusão de detalhes por Moro em seu romance. López estava decidido a atirar-se nas águas de um rio na localidade próxima à fronteira da Colômbia, quando a guarnição de Maduro que o capturara se rendeu ao encanto dos dólares oferecidos como suborno e permitiu sua fuga.
Desde então, Leopoldo López vive em Madri, na Espanha, com Lilian Tintori, seus filhos e seus pais. Mesmo à distância, continuam ajudando seus compatriotas na luta pela democratização da Venezuela, evidentemente sem o vigor da época em que ele e outras lideranças de oposição ganhavam eleições regionais, e representavam séria ameaça à continuidade da ditadura de Nicolás Maduro.
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