Os 106 anos de Celso Furtado:
o maior economista brasileiro de todos os tempos
Paulo Galvão Júnior (*)
Considerações iniciais
Hoje, 26 de julho de 2026, celebramos os 106 anos de nascimento de Celso Monteiro Furtado (1920-2004), pensador visionário que revolucionou a concepção do desenvolvimento econômico do Brasil e da América Latina.
Celso Furtado nasceu em Pombal, no sertão da Paraíba, em 26 de julho de 1920, filho de Maurício de Medeiros Furtado e de Maria Alice Monteiro Furtado. Formou-se em Direito, em 1944, na então Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), situada na cidade do Rio de Janeiro, à época capital da República dos Estados Unidos do Brasil, denominação oficial do país até 15 de março de 1967, quando passou a chamar-se República Federativa do Brasil.
Celso Furtado construiu uma obra que ultrapassou as fronteiras da Economia, influenciando a História, a Sociologia e a Ciência Política. Sua trajetória intelectual esteve sempre comprometida com a compreensão das causas do subdesenvolvimento brasileiro e latino-americano e com a formulação de estratégias capazes de promover um desenvolvimento econômico soberano e socialmente justo.
Entre 1954 e 2003, publicou mais de trinta livros de Economia, formando um dos mais consistentes conjuntos de reflexões produzidos por um economista brasileiro. Essa produção intelectual permanece atual, abordando questões que continuam presentes no debate contemporâneo, como desigualdade social, concentração de renda, dependência externa, industrialização, e planejamento estatal voltado ao desenvolvimento regional e nacional.
As obras de Celso Furtado
O primeiro livro de Celso Furtado não foi sobre Economia. Publicado em 1946, Contos da vida expedicionária: de Nápoles a Paris reúne narrativas inspiradas em sua experiência como segundo-tenente da Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), lutando contra os alemães nazistas e os italianos fascistas. Somente oito anos depois, ele publicou seu primeiro livro de Economia.
Antes de escrever seu primeiro livro de Economia, o economista paraibano Celso Furtado elaborou sua tese de doutorado em Economia na Université Paris-Sorbonne, na capital francesa, no ano de 1948. Intitulada L’économie coloniale brésilienne (XVIᵉ et XVIIᵉ siècles): élements d’Historie Économique apliqué à l’analyse de problemes économiques et sociaux, a tese teve como orientador o professor francês Maurice Byé (1905-1968), renomado economista e docente da Université Paris-Sorbonne.
A contribuição de Celso Furtado para as Ciências Econômicas iniciou-se com a publicação de A Economia Brasileira: contribuição à análise do seu desenvolvimento (1954), obra que inaugurou uma nova forma de interpretar a formação econômica nacional. Poucos anos depois, lançou Uma Economia Dependente (1956), aprofundando a análise da dependência estrutural das economias periféricas em relação às economias centrais. Em seguida, publicou Perspectivas da Economia Brasileira (1958), preparando o caminho para sua obra-prima, Formação Econômica do Brasil (1959), considerado um dos livros mais importantes da história do pensamento econômico brasileiro e leitura indispensável para compreender a evolução histórica e econômica do País, com destaque para o início, o apogeu e o declínio dos ciclos da cana-de-açúcar, do ouro, do café e da borracha.
Em sua obra-prima, Formação Econômica do Brasil, publicada em janeiro de 1959 e que já alcançou 60 edições, Celso Furtado advertiu: “(…) o Brasil por essa época ainda figurará como uma das grandes áreas de terra em que maior é a disparidade entre o grau de desenvolvimento e a constelação de recursos potenciais” (FURTADO, 2003, p. 251).
Ainda no ano de 1959, Furtado publicou Uma Política de Desenvolvimento Econômico para o Nordeste e A Operação Nordeste, obras que fundamentaram a criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), instituição concebida para enfrentar os históricos desequilíbrios regionais brasileiros por meio de planejamento estatal e investimentos públicos. Sua atuação demonstrou que o desenvolvimento regional deveria ser entendido como política de Estado, e não apenas como resposta emergencial às secas nordestinas.
Vale destacar que a seca é um fenômeno climático decorrente da irregularidade da distribuição das chuvas no tempo e no espaço do Semiárido brasileiro, que ocupa aproximadamente 60% do território da Região Nordeste (além de uma pequena porção do norte do estado de Minas Gerais), estendendo-se pelos nove estados nordestinos e concentrando a maior parte das áreas sujeitas às secas recorrentes.
Na década de 1960, sua produção consolidou a teoria histórico-estrutural do desenvolvimento. Obras como Desenvolvimento e Subdesenvolvimento (1961), A Pré-Revolução Brasileira (1962), Dialética do Desenvolvimento (1964), Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina (1966) e Teoria e Política do Desenvolvimento Econômico (1967), estabeleceram novos paradigmas para a compreensão das economias periféricas em relação às economias centrais. Para Furtado, o subdesenvolvimento não representava uma etapa transitória rumo ao progresso econômico, mas uma condição histórica produzida pelas relações internacionais de poder e pela própria estrutura econômica das nações periféricas.
Sua reflexão ampliou-se nas décadas seguintes, com livros como Formação Econômica da América Latina (1969), Análise do Modelo Brasileiro (1972), O Mito do Desenvolvimento Econômico (1974), Criatividade e Dependência na Civilização Industrial (1978), O Brasil Pós-Milagre (1981), Não à Recessão e ao Desemprego (1983), Transformação e Crise na Economia Mundial (1987), Brasil: a construção interrompida (1992), O Capitalismo Global (1998), O Longo Amanhecer: reflexões sobre a formação do Brasil (1999), Introdução ao Desenvolvimento: Enfoque Histórico-Estrutural (2000), Em Busca de Novo Modelo: reflexões sobre a crise contemporânea (2002) e Raízes do Subdesenvolvimento (2003). São obras que aprofundaram sua crítica aos limites do crescimento econômico desvinculado da justiça social, da soberania nacional e da preservação ambiental. São livros que defendem que o verdadeiro desenvolvimento exige transformação produtiva, democratização das oportunidades, fortalecimento das instituições e valorização da cultura nacional.
Sua produção bibliográfica impressiona pelo volume, como, também, pela coerência intelectual construída ao longo de quase cinco décadas. Poucos economistas conseguiram manter unidade analítica e compromisso social em uma obra tão extensa.
Seus livros foram traduzidos para diversos idiomas, influenciaram agentes econômicos em vários países e consolidaram o pensamento de Celso Furtado como uma das principais referências mundiais na Teoria do Desenvolvimento Econômico.
Portanto, além da profícua produção literária, Furtado foi um homem de ação. Atuou na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), dirigiu a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), foi ministro do Planejamento no governo João Goulart e ministro da Cultura no governo José Sarney. Em todas essas funções buscou transformar conhecimento científico em políticas públicas voltadas ao desenvolvimento nordestino, brasileiro e latino-americano. Sua visão integrava economia, cultura, educação, ciência e tecnologia como pilares inseparáveis da construção de um país próspero, justo, moderno e democrático.
O professor Celso Furtado, como gostava de ser chamado, lecionou na Université Paris-Sorbonne durante 20 anos. Também atuou como professor convidado nas universidades norte-americanas de Yale, Harvard e Columbia; no King’s College, em Cambridge; na École Normale Supérieure e na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), ambas em Paris; na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); na Universidade das Nações Unidas, em Tóquio; e no Instituto Latinoamericano y del Caribe de Planificación Económica y Social (ILPES), em Santiago do Chile.
Celso Furtado é um dos maiores intelectuais da história do Brasil e da América Latina. Vale ressaltar que no estado da Paraíba, terra natal de Celso Furtado, o Conselho Regional de Economia da Paraíba (CORECON-PB) realiza, desde 2005, o Prêmio Paraíba de Economia Professor Celso Furtado, que reconhece e premia as três melhores monografias produzidas por estudantes de graduação em Ciências Econômicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), em parceria com o Conselho Federal de Economia (COFECON).
Considerações finais
Os 106 anos de Celso Monteiro Furtado representam muito para o Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba (FCFPB), na capital paraibana, como também, para o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (CICEF), na capital fluminense. Constituem oportunidade ímpar para reafirmar a importância de um pensador que permanece extraordinariamente atual diante dos desafios enfrentados pelo Brasil no século XXI.
As questões relacionadas à dicotomia desenvolvimento-subdesenvolvimento, às desigualdades regionais, às disparidades sociais, à industrialização, à preservação ambiental, à concentração de riqueza, ao desemprego, ao crescente subemprego urbano e à globalização continuam dialogando diretamente com sua vasta, abrangente e profunda obra, que foi traduzida em 15 idiomas.
No livro póstumo Essencial (2013), Furtado, com organização, apresentação e notas de Rosa Freire d’Aguiar, viúva de Celso Furtado, ele enfatiza que: “o subdesenvolvimento não constitui uma etapa necessária do processo de formação das economias capitalistas modernas. É, em si, um processo particular, resultante da penetração de empresas capitalistas modernas em estruturas arcaicas” (FURTADO, 2013, p. 67).
Em plena Quarta Revolução Industrial é fundamental pensar nas soluções possíveis que conciliem crescimento econômico, inclusão social e sustentabilidade ambiental para as atuais e futuras gerações. É necessário ler e reler as obras de Celso Furtado na biblioteca mais próxima da sua residência. É o economista brasileiro mais lido do mundo.
Ao longo de mais de trinta livros de Economia publicados entre 1954 e 2003, Celso Furtado construiu um patrimônio intelectual incomparável. Seu legado demonstra que o desenvolvimento não pode ser reduzido ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), mas deve significar ampliação das capacidades humanas, fortalecimento das instituições democráticas, valorização da cultura nacional e construção de uma sociedade mais justa.
Suas obras permanecem atuais, inspirando as novas gerações na construção de um país próspero, justo e sustentável. O mestre Celso Furtado permanece como o maior economista brasileiro de todos os tempos e o seu pensamento continua iluminando os caminhos para um projeto nacional de desenvolvimento baseado na soberania nacional, na justiça social e na redução das desigualdades regionais e sociais, reafirmando sua condição de um dos maiores intérpretes do Brasil.
Referências
CENTRO INTERNACIONAL CELSO FURTADO DE POLÍTICAS PARA O DESENVOLVIMENTO (CICEF). Livros de Celso Furtado. Disponível: https://centrocelsofurtado.org.br/home/celso-furtado/livros/. Acesso em: 20 jul. 2026.
FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 32. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2003.
FURTADO, Celso. Essencial. Organização, apresentação e notas: Rosa Freire d’Aguiar. Prefácio: Carlos Brandão. São Paulo: Penguin Classics-Companhia das Letras, 2013.
(*) Paulo Francisco Monteiro Galvão Júnior é economista paraibano (CORECON-PB 1392), conselheiro efetivo do CORECON-PB, membro do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba (FCFPB), do Instituto de Inteligência Econômica (IIE) e do Grupo da Reforma Tributária da Paraíba (GRT-PB), e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência na capital paraibana. Além de palestrante, autor de 19 e-books de Economia desde 2009 e autor e co-autor de mais de 480 artigos de Economia desde 22 de julho de 1995. WhatsApp para palestras e entrevistas nacionais e internacionais: +55 (83) 92000-4420.
Obras de Celso Furtado para leitura na biblioteca mais próxima da sua residência:
O tenente: Cadernos de um expedicionário na Segunda Guerra Mundial. Organização, Apresentação e Notas de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.
Correspondência Intelectual de Celso Furtado: 1949-2004. Organização de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
Diários Intermitentes: 1937-2002. Organização: Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Obra autobiográfica. (A fantasia organizada; A fantasia desfeita; Os ares do mundo). Coordenação: Rosa Freire d’Aguiar. Ed. Definitiva. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
Anos de formação – 1938-1948: o jornalismo, o serviço público, a guerra o doutorado. Organização de Rosa Freire d’Aguiar. Rio de Janeiro: Contraponto/Centro Internacional Celso Furtado de Política para o Desenvolvimento, 2014.
Essencial. Organização, apresentação e notas: Rosa Freire d’Aguiar. Prefácio: Carlos Brandão. São Paulo: Penguin Classics-Companhia das Letras, 2013.
Raízes do subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
Em busca de novo modelo: reflexões sobre a crise contemporânea. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
Economia colonial no Brasil nos séculos XVI e XVII: elementos de história econômica aplicados à análise de problemas econômicos e sociais. São Paulo: Hucitec/Abphe, 2001.
Introdução ao desenvolvimento: enfoque histórico-estrutural. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
O longo amanhecer: reflexões sobre a formação do Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
O capitalismo global. São Paulo: Paz e Terra, 1998.
Seca e poder: entrevista com Celso Furtado. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1998.
Obra autobiográfica. Organização: Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
Brasil: a construção interrompida. São Paulo: Paz e Terra, 1992.
Os ares do mundo. São Paulo: Paz e Terra, 1991.
ABC da dívida externa: o que fazer para tirar o país da crise financeira. São Paulo: Paz e Terra, 1989.
A fantasia desfeita. São Paulo: Paz e Terra, 1989.
Transformação e crise na economia mundial. São Paulo: Paz e Terra, 1987.
A fantasia organizada. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
Cultura e desenvolvimento em época de crise. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
Não à recessão e ao desemprego. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
A nova dependência, dívida externa e monetarismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
O Brasil pós-“milagre”. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
Pequena introdução ao desenvolvimento – um enfoque interdisciplinar. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1980.
Criatividade e dependência na civilização industrial. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
Prefácio a nova economia política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
A economia latino-americana. São Paulo: Editora Nacional, 1976.
O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.
A hegemonia dos Estados Unidos e o subdesenvolvimento da América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973.
Análise do “modelo” brasileiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.
Formação econômica da América Latina. Rio de Janeiro: Lia Editora, 1969.
Um projeto para o Brasil. Rio de Janeiro: Saga, 1968.
Teoria e política do desenvolvimento econômico. São Paulo: Editora Nacional, 1967.
Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
Dialética do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1964.
A pré-revolução brasileira. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura. 1962.
Subdesenvolvimento e Estado democrático. Recife: Condepe, 1962.
Desenvolvimento e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.
A Operação Nordeste. Rio de Janeiro: Instituto Superior de Estudos Brasileiros, 1959.
Formação econômica do Brasil. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1959.
Uma política de desenvolvimento econômico para o Nordeste. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1959.
Perspectivas da economia brasileira. Rio de Janeiro: Instituto Superior de Estudos Brasileiros, 1958.
Uma economia dependente. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1956.
A economia brasileira: contribuição à análise do seu desenvolvimento. Rio de Janeiro: A Noite, 1954.
L’économie coloniale brésilienne (XVIᵉ et XVIIᵉ siècles): élements d’Historie Économique apliqué à l’analyse de problemes économiques et sociaux. Tese de Doutorado em Economia. Université Paris-Sorbonne: Paris,1948.
Contos da vida expedicionária: de Nápoles a Paris. Rio de Janeiro: Zelio Valverde, 1946.
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