Juscelino e o desenvolvimentismo

“A perspectiva de desenvolver o País ’50 anos em 5′ pode ter parecido bastante inspiradora aos brasileiros de 1955. Mas ’50 anos em 5′ a que custo? Eis o que os críticos liberais, nacionais e internacionais, nos convidam a questionar toda vez que ouvirmos o menor sinal do velho ‘canto da sereia’ populista com suas encantadoras promessas.”

Lucas Berlanza & Antônio Claret. Jr.

Acabei de ler o recém-lançado livro Juscelino: uma crítica ao desenvolvimentismo, de autoria de Lucas Berlanza (a quem agradeço pela gentil dedicatória) e Antônio Claret Jr.

Desde que recebi o referido livro, fui tomado por enorme curiosidade: conseguiriam os autores separar a biografia de Juscelino Kubitschek, um dos mais aclamados personagens da história política brasileira, do modelo desenvolvimentista que caracterizou sobretudo sua gestão na Presidência da República, sintetizado no slogan “50 anos em 5”.

Concluída a leitura, fiquei com a nítida impressão que os autores conseguiram separar a biografia de Juscelino, repleta de passagens memoráveis quer como médico, quer como político em início de carreira, apresentadas nos três capítulos iniciais, da visão crítica do Juscelino presidente da República, cujo legado combina ações merecedoras de elogios no curto prazo, mas a um custo considerável a médio e longo prazo.

A crítica ao modelo desenvolvimentista, que atribui ao Estado a responsabilidade de ser o principal indutor do desenvolvimento, e que se tornou a marca da gestão presidencial de Juscelino, fica clara já em sua chegada ao governo de Minas Gerais, quando criticou o abandono em que o estado havia sido deixado. Ele comparou a administração do estado a um “xadrez” em que as peças, manipuladas por uma “diabólica mão invisível”, pareciam estar em xeque-mate. A metáfora evoca duas colocações de Adam Smith: a do xadrez, a uma passagem da Teoria dos sentimentos morais, de 1759; a da mão invisível, conceito central do liberalismo econômico, à Riqueza das nações, de 1776. Nessas colocações, Juscelino responsabilizava o mercado e a falta de intervenção estatal pelo subdesenvolvimento da região.

Nos capítulos intermediários, os autores descrevem a filosofia desenvolvimentista, as influências dos economistas da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), think tank criado em 1955 e extinto por decreto após o golpe de 1964, bem como as críticas a essas visões formuladas por Eugênio Gudin.

O antepenúltimo capítulo examina a construção de Brasília, o projeto mais ambicioso de Juscelino, considerado tanto um marco de modernidade quanto um exemplo das contradições de seu governo. Enquanto a nova capital simbolizava a interiorização do desenvolvimento e a integração territorial, ela também revelou as limitações do modelo desenvolvimentista de Juscelino ao consumir bilhões de cruzeiros que poderiam ser destinados a setores de maior impacto social, como educação e saúde. Décadas após sua inauguração, a cidade continua a depender de subsídios federais, demonstrando que não se tornou o polo econômico autossustentável prometido.

No penúltimo capítulo, os autores analisam o Plano de Metas, baseando-se, em grande parte, nas críticas de Roberto Campos extraídas de suas memórias registradas em A lanterna na popa.

O slogan ’50 anos em 5′ encapsula perfeitamente o espírito populista do Plano de Metas. Para Roberto Campos, esse lema refletia mais do que um compromisso com o progresso: ele era a essência de uma política voltada para ganhos políticos imediatos, construída sobre a busca por obras grandiosas e visíveis, e que negligenciava as reformas estruturais indispensáveis para garantir um desenvolvimento sustentável.

Por fim, referem-se ao legado de Juscelino Kubitschek como um conjunto de realizações notáveis, muito mais estéticas do que essenciais e concluem que embora tenha promovido avanços significativos em infraestrutura e industrialização, seu governo também deixou um rastro de desigualdades, instabilidade econômica e oportunidades perdidas.

 

Referências

BERLANZA, Lucas; CLARET JR., Antônio: Juscelino: uma crítica ao desenvolvimentismo. São Paulo: LVM Editora; Instituto Liberal, 2026.

CAMPOS. Roberto. A lanterna na popa: memórias. Rio de Janeiro: Topbooks, 1994. 

SMITH, Adam. Teoria dos sentimentos morais. Tradução de Lya Luft; revisão de Eunice Ostrensky. São Paulo: Martins Fontes, 1999 – (Paidéia). 

_______________ A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas (2 volumes). Apresentação de Winston Fritsch; tradução de Luiz João Baraúna. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).