Lições de viagem: Curitiba
Durante uma etapa considerável de minha vida, era comum eu chegar a algumas cidades, cumprir obrigações − inicialmente jogos de basquete e posteriormente, reuniões, congressos, aulas ou palestras − e ir embora sem possibilidade de conhecer efetivamente o local.
Lamentavelmente, nem sempre foi possível voltar a algumas dessas cidades, de tal forma que afirmar que as conheço é quase uma mentira. É assim que me sinto em relação a Koper, Doncaster e Celje, na Iugoslávia (hoje Eslovênia), Nottingham e Leeds, na Inglaterra, Saint Andrews, na Escócia, Corrientes, La Rioja e Salta, na Argentina, Copiapó, no Chile, ou nas brasileiras Cachoeira do Sul, Jacobina, Boa Vista, Macapá e várias outras.
Felizmente, por outro lado, tive a chance de voltar a muitas delas com tempo suficiente para conhecê-las melhor e, em alguns casos, encantar-me com as mesmas. É o caso, seguramente, de Curitiba, a capital paranaense, à qual voltei mais uma vez no fim de semana prolongado de Corpus Christi.
Depois de inúmeras rápidas visitas à cidade, sem possibilidade de desfrutar de suas atrações, em dezembro de 2018, passei cerca de dez dias em Curitiba, ocasião em que fui acompanhar meu que jogou pela Seleção Brasileira no Campeonato Mundial de Futebol de 7 (Fut7). Como dizia um antigo comercial: “Não basta ser pai, tem que participar”.
Foi inesquecível. Não só pelo título conquistado pela Seleção Brasileira, mas pela disponibilidade de tempo que me permitiu explorar a capital paranaense, usufruindo de suas atrações turísticas, conhecendo melhor sua gente e experimentando sua rica gastronomia.
Capital do estado do Paraná, Curitiba ocupa uma área territorial de 434,892 km² e possui uma população estimada de 1.963.726 pessoas (IBGE, 2021), sendo a mais populosa da região sul do País. Fundada em 1693, com o nome de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, veio a adotar o nome de Curitiba apenas em 1721. Sua importância inicial deveu-se ao fato de ser uma importante parada comercial com a abertura da estrada tropeira entre Viamão, no Rio Grande do Sul e Sorocaba, em São Paulo, rota estabelecida entre o extremo sul do Brasil e a cidade de Sorocaba, pela qual seguiam as tropas de muares criados no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, com destino à Feira de Muares de Sorocaba, onde eram vendidas e distribuídas para todo o interior do País.
Como somente em 1853 o Paraná se tornou oficialmente um estado brasileiro, tendo o seu território desmembrado de São Paulo, Curitiba foi desde o início a capital da província, mantendo desde então um acelerado ritmo de crescimento urbano beneficiado pela chegada de grande quantidade de imigrantes europeus ao longo do século XIX, em especial de alemães, poloneses, ucranianos e italianos, que contribuíram não apenas para a diversidade cultural existente até hoje na cidade, como também para seus elevados índices de educação e qualidade de vida.
Conhecida por ruas e avenidas largas e pela existência de muitos bairros densamente arborizados, Curitiba experimentou diversos planos urbanísticos e viu surgirem várias legislações que visavam ordenar e controlar seu acelerado crescimento. Tais fatores contribuíram para que a cidade ficasse famosa internacionalmente pelas suas inovações urbanísticas e cuidado com o meio ambiente. A mais conhecida dessas inovações se deu no transporte público, cujo sistema inspirou o TransMilenio, implantado em Bogotá, na Colômbia.
Curitiba é detentora de uma série de títulos e indicadores que atestam o reconhecimento internacional da cidade, dentre os quais destacam-se: 1. a revista Forbes publicou em 2009 os resultados de uma pesquisa na qual Curitiba foi apontada como a terceira cidade mais sagaz do mundo. Nessa pesquisa, é considerada sagaz ou esperta (smart city) a cidade que se preocupa, de forma conjunta, em ser ecologicamente sustentável, com qualidade de vida, boa infraestrutura e dinamismo econômico; 2. em 2014 foi admitida pela UNESCO em sua Rede de Cidades Criativas, no segmento design, aspecto que será detalhado mais adiante; 3. em 2015, no Índice Verde de Cidades, realizado pela Siemens em parceria com a Economist Intelligence Unit, foi classificada como a mais ambientalmente sustentável da América Latina; 4. em 2023, na gestão do prefeito Rafael Greca, foi eleita a cidade mais inteligente do mundo no World Smart City Awards, a principal premiação global do setor realizada em Barcelona. A capital paranaense destacou-se por integrar inovação, sustentabilidade e soluções tecnológicas para melhorar a qualidade de vida da população
O elevado nível educacional de Curitiba, que tem uma de suas explicações na forte influência dos imigrantes europeus, se estende por todo o ciclo estudantil, uma vez que a cidade está entre as que possuem baixíssimo nível de analfabetismo, bom desempenho nos níveis infantil, fundamental e médio e considerável número de cursos superiores e de pós-graduação de qualidade, oferecidos não apenas pela Universidade Federal (UFPR) e pela Universidade Tecnológica Federal (UTFPR), mas também por universidades privadas, entra as quais se destacam a Pontifícia Universidade Católica do Paraná e a Universidade Positivo.
Bem dotada também na área de saúde, Curitiba é sede de instituições dos três níveis de governo, federal, estadual e municipal, além de .possuir um hospital que se tornou referência mundial em pediatria infantil. Fundado em 1919, com a energia e a ousadia de um grupo de voluntárias e médicos que sonhou em construir um centro de saúde de excelência para todas as crianças, o Complexo Pequeno Príncipe é hoje o maior hospital pediátrico do sul do Brasil, oferecendo, em mais de um século de existência, atendimentos em saúde em 32 especialidades, com excelência técnico-científica, equidade e humanização, a milhares de crianças e adolescentes de todo o Brasil.
Coordenadas pela Fundação Cultural de Curitiba, que tem sua sede no Moinho Rebouças, as atividades culturais se destacam em diversas áreas, com algumas instalações alinhando-se entre os pontos mais visitados da cidade, como o Museu Oscar Niemeyer, o Centro Cultural Paço da Liberdade, o Teatro Guaíra, a Ópera de Arame e a Pedreira Paulo Leminski. Coordenado pela iniciativa privada, mas com apoio do setor público, Curitiba sedia anualmente o Festival de Teatro, com apresentação de companhias de destaque de todo o País.
Apesar de estar localizada em domínio da Mata Atlântica, um dos biomas mais devastados do Brasil, Curitiba consegue manter uma extensa quantidade de áreas verdes em seu território, compostas em sua maior parte por parques e bosques municipais, entre os quais os parques Barigui, Tanguá e Tingui, os bosques do Papa e Zanzinelli, e o Jardim Botânico, um dos cartões postais da cidade, graças, principalmente, à sua estufa com plantas raras em seu interior.
O centro histórico permite conhecer um pouco das origens da cidade. A região possui casas com arquitetura antiga, museus, templos e o Memorial de Curitiba, com exposições permanentes e gratuitas. Neste local situa-se a famosa Feirinha do Largo da Ordem que, todos os domingos, abriga dezenas de barracas de artistas oferecendo seus produtos, seus artesanatos, comida variada e muita arte. É possível se deparar também com apresentações de artistas de rua, expondo todo o seu talento. O Largo da Ordem é o ponto onde, supostamente, a cidade teria começado, havendo inclusive uma placa indicando o “marco zero” de Curitiba.
A torre panorâmica localizada num ponto privilegiado do bairro Mercês conta com um observatório em sua parte superior. Numa altura de 109,5 metros, oferece uma belíssima visão da silhueta da cidade em 360º. Além do mirante, o local possui um mapa de metal em relevo com todos os detalhes de Curitiba e abriga ainda o Museu do Telefone.
Dois bairros chamam atenção por atraírem boa parte da vida boêmia de Curitiba, o Santa Felicidade, tradicional reduto italiano, onde se localiza o famoso Restaurante Madalosso, e o Batel, com ampla oferta de bares e restaurantes, nos quais se pode provar uma culinária diversificada. Os três pratos locais mais conhecidos, o barreado, o pinhão e a carne de onça podem ser degustados em diferentes pontos da cidade.
Como já mencionado anteriormente, Curitiba faz parte desde 2014 da Rede de Cidades Criativas da UNESCO no segmento design. De acordo com o Sebrae, “o design é uma marca de Curitiba até mesmo em sua história, pois, em 1783, a Câmara Municipal desenhou o traçado de suas ruas e os locais reservados a imóveis residenciais e comerciais, um exemplo precoce de planejamento urbano”.
Sem dúvida, a contribuição do arquiteto e urbanista Jaime Lerner, que foi prefeito de Curitiba e governador do Paraná, foi essencial para que a cidade se transformasse em referência mundial não apenas por seus projetos inovadores, mas também por conseguir executá-los sem necessidade de recursos de grande monta. Afinal, como afirmava Lerner, “a criatividade começa quando você tira um zero do orçamento. O excesso de recursos leva ao desperdício”.
Atualmente, é possível ver soluções inovadoras em Curitiba. O curioso é que a criatividade na cidade tem sido usada como uma estratégia pela administração pública com o propósito de servir à comunidade, como é o caso do transporte urbano integrado, que tem pontos de ônibus em uma espécie de tubo transparente que abriga os passageiros da chuva e do vento.
Passeio mais popular entre os turistas que vão a Curitiba, a Linha Turismo é prática e leva à maioria dos pontos de interesse da cidade. Desenvolvida para facilitar o turismo na capital paranaense, funciona muito bem e evita que o turista perca tempo organizando roteiros, avaliando as melhores rotas ou mesmo descobrindo quais são os locais a serem visitados. A Linha Turismo é operada em ônibus de dois andares, com sistema de pagamento diferente dos ônibus comuns, com direito a 24h de viagens ilimitadas, a contar a partir do primeiro embarque. Ao todo, a rota do ônibus tem 24 pontos.
Por toda Curitiba, é possível encontrar empreendedores que utilizam o design como principal atrativo de seus produtos, sejam eles pequenos artesãos ou grandes indústrias. Há desde joias e calçadões inspirados pelo formato do pinhão, típico do local, até móveis com linhas inovadoras e funcionais. Assim, a cidade não é apenas fonte de inspiração aos criativos, mas também referência viva, por meio de seus espaços, de como o design serve para transformar, inovar, criar facilidades, sempre com uma consciência voltada ao meio ambiente.
Por fim, impossível não mencionar o passeio de trem de Curitiba a Morretes, repleto de paisagens maravilhosas e instigantes. É o mais belo turismo ferroviário oferecido no Brasil. O trem parte da estação rodoferroviária de Curitiba, desce a Serra do Mar, na maior parte preservada da nossa Mata Atlântica, passa por pontes, túneis, viadutos e penhascos até chegar a Morretes, cidade de casarões antigos, com povo acolhedor e pacato, que recebe a todos com muita cordialidade. Em seus restaurantes é possível apreciar a deliciosa cachaça de Morretes, degustando o tradicional barreado, prato mais apreciado do litoral paranaense.
Referência
DAVILA, Anapaula Iacovino; MACHADO, Luiz Alberto; PAULA, Mauricio Andrade de; SANTOS, Sonia Helena. Economia + Criatividade = Economia Criativa. 2ª edição revista, ampliada e atualizada. São Paulo: Scriptum Editorial, 2024.
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