O poder do futebol brasileiro

Estou escrevendo este artigo quando a Copa do Mundo de 2026 encontra-se ainda em suas fases iniciais, sendo, portanto, impossível qualquer prognóstico preciso de quem conquistará o título mundial[1].

Ainda que algumas das seleções tenham confirmado seu amplo favoritismo na primeira fase mostrando excelente futebol, como as da Argentina e da França, outras passaram de fase, mas com desempenho aquém do esperado, como as da Alemanha[2], da Espanha, da Inglaterra, de Portugal e do Brasil. Menciono apenas essas seis seleções, pois eram apontadas como favoritas por boa parte dos analistas especializados, embora a inclusão da seleção brasileira nesse seleto grupo deva-se muito mais ao seu passado glorioso do que ao futebol que vem demonstrando nos últimos anos.

Meu objetivo, porém, vai muito além de analisar a performance da seleção brasileira de futebol dentro das quatro linhas. O que pretendo mostrar é a força que nosso futebol continua tendo no mundo da diplomacia, sendo um dos principais responsáveis por revelar ao mundo uma faceta positiva do Brasil. Mesmo com o desaparecimento de Pelé, símbolo maior dessa faceta, e apesar de não termos mais estrelas da dimensão de Garrincha, Rivelino, Ronaldo e Ronaldinho − Neymar não conseguiu, pelo menos até agora, confirmar as esperanças nele depositadas e atingir esse patamar −, o futebol brasileiro continua despertando respeito em todo mundo, constituindo-se em motivo de orgulho e assumindo lugar de verdadeiro embaixador do nosso país como instrumento de soft power.

Em 2005, na abertura da segunda edição do Fórum FAAP de Discussão Estudantil, modelo de simulação das reuniões de organismos multilaterais organizado pelos estudantes de relações internacionais voltado para alunos de ensino médio, o então ministro das Relações Exteriores, embaixador Antonio de Aguiar Patriota, salientou a importância do Brasil e sua influência no mundo com base na teoria do soft power, de Joseph Nye, que enfatiza o poder de persuasão no mundo moderno através de mecanismos outros do que a força militar, base da teoria do hard power. Nesse sentido, enfatizou o papel desempenhado pelo futebol brasileiro, “uma vez que nossos jogadores são conhecidos até nas ilhas mais distantes do Pacífico”.

Seu pronunciamento foi influenciado pelo “Jogo da Paz”, como ficou conhecida a partida amistosa de futebol realizada no dia 18 de agosto de 2004, no Estádio Sylvio Cator, na cidade de Porto Príncipe, capital do Haiti, entre a seleção brasileira – então campeã mundial – e a seleção haitiana.

O referido jogo, vencido pela seleção brasileira por 6 a 0, foi chamado  “Jogo da Paz” por ter como objetivo principal iniciar uma campanha de desarmamento naquele país caribenho que vivia uma guerra civil desde a comemoração do bicentenário de sua independência, em janeiro de 2004, com os ingressos do jogo sendo oferecidos em troca de armas. Por conta disso, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) foi agraciada com o Prêmio Fair Play da FIFA.

O Haiti literalmente parou naquele dia, cujas imagens dos habitantes de Porto Príncipe correndo atrás do caminhão que conduziu os jogadores brasileiros do aeroporto ao hotel e ao estádio ficarão eternamente registradas como manifestação de admiração e reconhecimento jamais vista em qualquer modalidade esportiva. Embora todos os integrantes da delegação brasileira tenham sido alvo do carinho dos haitianos, quem despertou maior empolgação foi Ronaldinho, conhecido como o “Bruxo do Futebol”.

Apesar do extraordinário impacto desse episódio, ele está longe de ser pioneiro como representante da força do futebol brasileiro, evidenciada ao longo do tempo por passagens envolvendo jogadores, clubes ou seleções. Além dos gols, títulos e momentos eternizados na história, Pelé protagonizou diversos outros feitos memoráveis no futebol. Um deles foi o fato de ter parado uma guerra na África nos anos 1960, uma narrativa envolta em mitos, mas que virou, inclusive, música da torcida do Santos.

Em 1969, o Santos viajou para uma excursão pelo continente africano. Na época, a Nigéria passava por uma guerra civil, com a região de Biafra tentando a independência. O conflito colocou em lados opostos dois grupos étnicos do país: os igbo e os hausa, que dominavam o governo naquele momento: “Um dos meus grandes orgulhos foi ter parado uma guerra na Nigéria, em 1969, em uma das várias excursões que o Santos fez pelo mundo. Nós tínhamos um amistoso marcado na cidade de Benin, que estava no meio de uma guerra civil. Só que o Santos era tão amado que as partes aceitaram um cessar-fogo no dia da partida. Ficou conhecido como ‘o Dia em que o Santos parou a guerra'”, contou Pelé nas redes sociais, num post de 2020.

Eu mesmo, tenho três experiências marcantes gravadas na memória que atestam esse poder do futebol brasileiro. A primeira ocorreu em Lima, quando participava de uma excursão da equipe de basquete do Colégio Mackenzie em 1971, um ano depois da conquista do tricampeonato no México. Estávamos alojados no Clube de Regatas Lima e, numa ida ao centro da capital peruana, desafiamos alguns jovens moradores locais que disputavam uma pelada em uma das principais praças de Lima. Foi muito rápido, o suficiente porém para que os integrantes do time local fizessem questão de registrar o acontecimento em fotos que guardo até hoje.

A segunda foi no ano seguinte, por ocasião de outra excursão do time de basquete do Continental Parque Clube. Foi minha primeira ida à Europa, onde realizamos jogos em diversas cidades da Iugoslávia (atualmente Eslovênia), na Finlândia e na Suécia. Nesse último país, além de um jogo em Estocolmo, fomos a Gimmelstad, na região de Lulea, nas proximidades do Círculo Polar Ártico. Nessa localidade, em que cada jogador brasileiro ficou hospedado na casa da família de um jogador da cidade, além do jogo de basquete, houve um amistoso de futebol. Para completar nossa equipe, além dos integrantes do time de basquete, jogaram também o técnico (Claudio Mortari, recentemente falecido, que dirigiu o Sírio na conquista do campeonato mundial interclubes em 1979), e o chefe da delegação. Como me sobressaí na  partida, embora tenhamos perdido de 1 a 0, acabei sendo fotografado e entrevistado pelo jornal local, que deu grande ênfase ao meu apelido de “Pelezinho”.

A terceira e derradeira experiência ocorreu em 2010, quando participava de uma missão estudantil de alunos e professores da FAAP, que percorreu um trecho do Caminho de Abraão[3], incluindo partes da Jordânia, Israel e Palestina. Em diferentes oportunidades em que tínhamos contato com habitantes palestinos, ao saberem que éramos brasileiros, invariavelmente o assunto se transformava em futebol e, uma vez mais, o nome mais festejado era o de Ronaldinho. Em Hebron, um dos estudantes que integrava a missão da FAAP, resolveu bater bola com a garotada local. Como tinha grande habilidade, logo se transformou em motivo de atração, sendo seguido por um bom tempo quando prosseguimos a viagem.

Durante a realização da Copa do Mundo, novas notícias dão conta da força da imagem do futebol brasileiro, reafirmando seu relevante papel como instrumento de soft power.

Torcedores eufóricos têm ido às ruas para comemorar as vitórias da seleção brasileira em diversos países, entre os quais Paquistão, Bangladesh e Líbano. Em post nas redes sociais, Paulo Feres, embaixador do Brasil em Bangladesh, declarou: “Aqui (em Bangladesh) deve ter por volta de 100 milhões de torcedores do Brasil. Eles têm uma conexão emocional com a seleção brasileira“.

Um vídeo que viralizou nas redes sociais mostra que no Líbano, que se encontra em guerra com Israel por causa do Hezbollah, muitos libaneses tomaram as ruas de Trípoli para comemorar as vitórias do Brasil contra a Escócia e o Japão.

Não é muito difícil explicar a ligação entre os dois países: a Associação Cultural Brasil-Líbano estima que, entre descendentes e cidadãos, o Brasil abrigue cerca de oito milhões de pessoas. Isso significa que a comunidade libanesa no Brasil é maior que a população do próprio Líbano. Ao mesmo tempo, o país árabe possui o maior número de brasileiros no Oriente Médio − cerca de 20 mil pessoas.

A imigração libanesa para a América do Sul começou no fim do século XIX, impulsionada, principalmente, por questões políticas e religiosas, quando a região ainda era dominada pelo extinto Império Turco-Otomano.

Além disso, a seleção libanesa nunca conseguiu se classificar para uma Copa do Mundo, fazendo com que os fãs de futebol do país fiquem “órfãos” durante o torneio. Na verdade, o melhor resultado dos Cedros foi um terceiro lugar na Copa das Nações Árabes em 1963,  resultado que se repetiria em 2003. Por essa razão, para os libaneses, não parece ser má-ideia torcer para a única seleção pentacampeã do mundo.

[1] Manhã do dia 30 de junho, quando já são conhecidas apenas quatro seleções classificadas para as oitavas de final: Canadá, Brasil, Paraguai e Marrocos.

[2] A seleção da Alemanha já foi desclassificada ao perder nos pênaltis para a seleção do Paraguai.

[3] Iniciativa de William Ury, professor da Harvard University e um dos mais bem-sucedidos negociadores da atualidade. Inspirado na exitosa experiência do Caminho de Compostela, ele idealizou uma caminhada pelo trajeto trilhado por Abraão (primeiro patriarca do judaísmo, cuja história está registrada em Gênesis 12-25), por meio da qual pessoas do mundo todo possam dar sua contribuição à busca da paz nesta região há tanto tempo marcada por conflitos e conflagrações.