UnB, uma universidade inovadora:

Relações Internacionais como campo de estudo no Brasil[1]

Eiiti Sato*

O presente ensaio foi escrito em celebração dos 60 aos da fundação da Universidade de Brasília e também como uma homenagem aos estudantes que cursaram Relações Internacionais na UnB, cujos sucessos nas suas carreiras têm constituído um dos testemunhos mais eloquentes do bom nome da instituição. A Universidade de Brasília foi fundada em 1962 estabelecendo, de forma pioneira, a primeira universidade brasileira criada, desde o início, como uma universidade de pesquisa. O conceito de universidade de pesquisa difere substancialmente da concepção tradicional de instituição de ensino do terceiro grau. No Brasil, a concepção de universidade de pesquisa começou a ganhar forma com a geração de professores e de lideranças educacionais que, nas três primeiras décadas do século XX, passaram a se interessar por essa concepção que associa a universidade à ciência, à reflexão e à pesquisa. Em 1916 foi criada a Sociedade Brasileira de Ciências que, em 1922, passou a ser denominada Academia Brasileira de Ciências (ABC) e, em 1924, foi criada a Associação Brasileira de Educação (ABE). Essas duas instituições reuniam boa parte dos professores e educadores que iriam exercer grande influência no movimento em torno da ideia de se criar universidades no Brasil onde o ensino estaria associado não apenas à transmissão de conhecimentos, mas também ao desenvolvimento da ciência, da reflexão e da pesquisa, em outras palavras, não seriam mais simples instituições de ensino do terceiro grau.

Antecedentes: a universidade de pesquisa no Brasil

Na década de 1920 já haviam sido criadas formalmente no Brasil duas universidades; uma no Paraná em 1912 e outra, em 1920, no Rio de Janeiro, “mas nenhuma delas foi mais do que um aglomerado de escolas profissionais reunidas sob um frágil reitorado com poucas atribuições”, argumenta Simon Schwartzman.[2] Com efeito, na década de 1920, já existiam muitas instituições de ensino superior no Brasil não apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas também em muitos outros Estados brasileiros. A ideia de universidade de pesquisa era, todavia, ainda uma ideia um tanto difusa no Brasil. Quando a Universidade de São Paulo foi criada em 1934 essa ideia começou realmente a ganhar forma institucional. Criou-se a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL-USP) tendo em vista o fato de que as tradicionais Faculdades sobre as quais a USP estava sendo criada eram, basicamente, instituições de ensino do terceiro grau, formando profissionais como médicos, advogados, engenheiros e agrônomos para quem a ciência, embora importante, não passava de uma referência, não era ainda uma inspiração e uma motivação para a prática corrente de seus professores e integrada à educação intelectual dos estudantes. Assim, a FFCL-USP deveria introduzir na recém-criada universidade o “espírito científico”, isto é, a preocupação sistemática com a ciência e com a reflexão como base do ensino; e isso só era possível se os professores fossem, por sua vez, praticantes ativos da atividade de pesquisa e de reflexão. Foi com esse entendimento que físicos, matemáticos, geólogos, químicos e pensadores sociais vindos da Europa e dos EUA foram integrar a primeira geração de professores e de pesquisadores da USP, acomodados, em sua grande maioria, na FFCL-USP. Entre os nomes ilustres dessa geração podem ser lembrados os de Enrico Fermi, Gleb Wataghin, Luigi Fantapié, e dos vários integrantes da Missão Francesa tais como Roger Bastide, Paul Arbousse-Bastide, Fernand Braudel, Claude Lévi-Strauss, e Pierre Monbeig, que ganharam destaque posteriormente ou que, permanecendo no Brasil, migraram para outras faculdades ou acabaram por criar novos institutos na USP.[3] Historiadores da USP costumam lembrar que Fernand Braudel, embora jamais tenha voltado a passar outra temporada no Brasil depois dos anos de USP, costumava repetir que “havia se tornado inteligente no Brasil, em São Paulo mais especificamente“.

Também como antecedente importante para a criação da Universidade de Brasília, vale lembrar o ambiente social efervescente no que se referia ao interesse pela atividade científica desde os fins do século XIX. As expedições científicas eram feitas por aventureiros ousados que, ao mesmo tempo, eram observadores argutos de um mudo que se transformava rapidamente. Havia muito mais a ser descoberto do que novas terras e novos continentes que poderiam representar novas oportunidades de negócios. Em especial, o século XIX viveu a disseminação da percepção de que o mundo era bem mais vasto, complexo e diferente do que se conhecia na velha Europa, em torno do Mediterrâneo, e nos rincões conhecidos da Ásia. Havia povos, costumes, faunas e florestas exóticas, vulcões e outros fenômenos da natureza, estranhos à experiência dos estudiosos da Europa, que aguçavam tanto a ânsia por novos conhecimentos quanto a imaginação e a curiosidade de jovens e de adultos em toda parte. Essa curiosidade, associada à imaginação, se manifestava em figuras tão variadas como Napoleão Bonaparte e Lord Carnarvon, que contribuíram com seu poder político ou com sua fortuna para, virtualmente “descobrir” um Egito cheio de maravilhas e mistérios. Foi a partir da expedição de Napoleão ao Egito que se decifrou a escrita por hieróglifos por meio da pedra de roseta. Conta-se que Napoleão acompanhava com grande interesse as viagens de exploração científica pelas Américas feitas por Alexander Von Humboldt (1769-1859), a quem muitos veem grande atualidade em seu trabalho e em suas descobertas, por seu interesse pela natureza como um grande sistema complexo e verdadeiramente vivo.[4] As viagens exploratórias de Humboldt não traziam apenas novos conhecimentos mas também – para a época talvez mais importante – enchiam a imaginação das pessoas. Cem anos depois, as expedições de Roald Amundsen para o Polo Norte e para o Polo Sul eram acompanhados com interesse e diretamente pelo rei da Noruega.

O fato é que Charles Darwin não atraía a atenção de seus contemporâneos apenas por suas teorias sobre a evolução das espécies, mas o público e os jornalistas em toda parte interessavam-se também por sua experiência em ver e observar terras em um mundo desconhecido e estranho a bordo do famoso H.M.S. Beagle. O Príncipe Albert – Consorte da Rainha Vitória – deu início às feiras mundiais industriais cuja primeira edição ocorreu em Londres em 1851 reunindo não apenas empreendedores industriais, mas também personalidades da ciência como o próprio Charles Darwin e do mundo da cultura como Charles Dickens, Lewis Carroll, Charlotte Bronte e Alfred Tennyson. Cerca de 6 milhões de pessoas visitaram a Great Exhibition of the Works of Industry of all Nations em 1851. Com o mesmo espírito e com as mesmas características foram realizadas outras feiras mundiais, em Paris e em outras capitais europeias e em outras cidades importantes de países como os EUA. Em larga medida, Alexander Von Humboldt foi um dos pioneiros desse crescente interesse generalizado pela ciência, que se estenderia até meados do século XX. Talvez o testemunho mais vivo desse interesse tenha sido Júlio Verne (1828-1905) cujas obras de ficção científica criaram uma nova modalidade de literatura capaz de preencher o interesse e a imaginação de milhões de pessoas em todo o mundo.

Esse movimento se estendeu até mesmo para sociedades periféricas. Em 1925, o Brasil recebeu a visita de Albert Einstein que, à época, juntamente com algumas figuras como Marie e Pierre Curie, pode-se dizer que era o próprio rosto da ciência uma vez que a Física, a partir dos fins do século XIX, passara a ocupar o centro das atenções das ciências e do público em geral, do mesmo modo que a Astronomia havia sido o centro das atenções da ciência nos séculos XVI e XVII. Os cronistas que registraram a visita de Einstein ao Brasil relatam que a palestra proferida pelo notável cientista no Clube de Engenharia sobre a teoria da relatividade, foi muito concorrida e que parte substantiva da audiência era composta por pessoas completamente alheias ao mundo da ciência.[5] As duas guerras mundiais e o advento da era atômica também foram fatores que reforçaram sobremaneira o interesse generalizado pela Física e pela ciência de uma forma geral. A resolução de número 1 da recém-criada Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu em 1945 o Comitê de Energia Atômica das Nações Unidas para a qual o governo brasileiro designou Álvaro Alberto que, apesar de ser militar de carreira, a principal motivação para essa indicação foi sua trajetória como cientista, tendo sido Presidente da Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira de Química. De volta ao Brasil, após a experiência das discussões no Comitê da ONU que havia tentado criar um regime internacional para a Energia Nuclear, Álvaro Alberto passou a ocupar-se da mobilização em torno da criação do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) que seria estabelecido em 1951, à semelhança do que havia em países como os EUA, o Reino Unido e o Canadá.

Além desses, muito outros eventos poderiam ser mencionados como antecedentes, mostrando que a preocupação com a ciência e sua importância para a prosperidade e para a segurança das nações era reconhecida em toda parte. Ainda no início da década de 1950, embora sem o glamour de Einstein, a convite do governo brasileiro, o jovem, mas já experimentado cientista, Richard P. Feynman, que havia participado do Projeto Manhattan como físico teórico, deveria ministrar uma série de palestras sobre Física Teórica no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) na Universidade do Brasil (hoje UFRJ) com o objetivo de despertar o interesse dos estudantes pela ciência e, principalmente, pela prática da ciência.[6] Nesse sentido, a ideia de uma nova universidade, mais diretamente associada à ciência, à pesquisa e à reflexão, passava a entusiasmar o mundo da política e as sociedades de uma forma geral, em especial todos aqueles que, de algum modo, pensavam que a educação e o conhecimento científico eram elementos profundamente integrados, constituindo verdadeiros insumos estratégicos para as nações.

UnB: uma research university desde sua fundação

Há uma lenda que diz que, inicialmente, o presidente Juscelino Kubitscheck não era favorável à inclusão de uma universidade no projeto de construção da nova capital. A decisão de estabelecer uma universidade no projeto teria sido tomada pelo Presidente JK, após uma conversa com Victor Nunes Leal e Cyro dos Anjos, que chefiavam seu Gabinete Civil. A certa altura da conversa Cyro dos Anjos teria argumentado: “Presidente, o senhor já visitou o túmulo de Thomas Jeferson? Na grande lápide vertical está escrito que, ao lado de todas as realizações como “Founding Father” da nação americana Thomas Jefferson era o fundador da Universidade da Vrigínia”. O Presidente JK, mineiramente, teria concluído: “devemos ter sim uma universidade na nova capital”. Se esse diálogo ocorreu de fato não há registro, mas não resta dúvida de que é bastante verossímil. [7]

Em larga medida, a criação da Universidade de Brasília, em 1962, foi uma resultante desse ambiente francamente favorável a essa particular concepção de universidade. Institucionalmente, pode-se dizer que o delineamento do modelo de universidade foi traçado bem antes do relatório preparado pela comissão de especialistas constituída pelo Governo Goulart e presidida por Darcy Ribeiro – à época Ministro da Educação – com o propósito de avaliar e, eventualmente, elaborar uma proposta de lei com vistas à criação de uma universidade na nova Capital Federal.[8]

Como já mencionado, a ideia de uma nova universidade – uma universidade de pesquisa – vinha sendo trabalhada no Brasil há muito tempo e chegou até mesmo a ser formalmente proposta, ainda na década de 1930, na forma de criação de uma Universidade do Distrito Federal (UDF), a ser implantada no Rio de Janeiro quando a ideia de uma nova capital para o país ainda não passava de uma quimera. À época, o principal entusiasta dessa ideia era Anísio Teixeira e, para seu primeiro ano de funcionamento (1936), tal como ocorrera com a USP, foi trazido da França um grupo de professores para ministrar cursos de várias áreas integrando uma Escola de Ciências. Apesar de tudo, a iniciativa não vingou e a UDF acabou sendo incorporada à Universidade do Brasil (hoje UFRJ).

Como já mencionado, a ênfase posta na Física no presente relato decorre do fato de que, até meados do século XX – no auge do interesse pela criação de universidades no Brasil – a Física ocupava o centro das atenções das ciências. Ocorria com a Física algo semelhante ao que havia ocorrido com o estudo da Astronomia que, nos tempos de Galileu e de Isaac Newton, era praticamente sinônimo de fazer ciência. O conceito de research university, no entanto, incluía também outros campos das ciências e também as áreas das Humanidades e das Ciências Sociais, como ocorria em universidades como Princeton, Harvard, ou Oxford. É o que explica porque a fundação da USP foi acompanhada da criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, para a qual foram trazidas figuras como Lévi-Strauss, Roger Bastide e Fernand Braudel, não se restringindo a físicos e matemáticos como Enrico Fermi, Gleb Wataghin e Luigi Fantapié.

O sentido mais geral desse conceito de universidade pode ser ilustrado pelo relato feito por Richard Feynman de suas vindas ao Brasil, que estavam vinculadas às iniciativas de instituições recém-criadas pelo Ministério da Educação e Cultura com o propósito de formar pessoal para as universidades e incentivar a implementação do modelo research university no Brasil.[9] Feynman relata que achava bastante curioso o fato de que os estudantes brasileiros pareciam tão inteligentes e tão dedicados quanto os seus alunos de Princeton, mas que tinham grande dificuldade de associar o que estudavam à observação da realidade. Em um curso de Física que ministrava no CBPF – relata Feynman – os estudantes revelavam-se notavelmente atentos, anotando tudo o que falava e, por vezes, até faziam perguntas para se certificarem de que haviam anotado corretamente suas palavras. Ao abordar o tema da polarização da luz – observa  Feynman – perguntara o que seria o “ângulo de Brewster” e, imediatamente, vários alunos levantaram a mão e a resposta viera de forma precisa, enunciando perfeitamente o conceito em questão. No entanto, como a janela da sala oferecia uma bela visão do entardecer na Baía da Guanabara, resolveu pedir aos alunos que explicassem aquela visão das cores e matizes que aquele belo entardecer proporcionava. A resposta fora um silêncio constrangedor, revelando que a nenhum dos estudantes ocorria a ideia de que o espetáculo oferecido pela natureza era um fenômeno decorrente da polarização da luz. Feynman explica essa curiosa dissociação entre estudar e observar e compreender a realidade por meio de uma comparação. Argumenta que um exemplo hipotético dessa dificuldade observada no comportamento dos estudantes brasileiros era como um estudante da língua grega que, diante de uma banca de exame, é perguntado “Quais as ideias de Sócrates sobre a relação entre Verdade e Beleza?” – e o estudante não consegue responder. Então a banca refaz a questão: “O que Sócrates disse a Platão no Terceiro Simpósio?” O estudante fica feliz, sente-se aliviado e, sem hesitar, responde “Sócrates disse isso, aquilo e aquilo outro…”, reproduzindo tudo o que Sócrates havia dito no Terceiro Simpósio, palavra por palavra, explicando justamente a sua visão sobre a relação entre verdade e beleza.[10] Esse relato de Feynman ilustra de forma notável a diferença entre o ensino do terceiro grau que era praticado no Brasil – voltado para responder perguntas em provas e em concursos públicos – e o conceito de research university no qual o ensino é orientado para o desenvolvimento do conhecimento e da curiosidade científica, isto é, voltado para a reflexão e para a compreensão da realidade física, social, política e cultural dentro da qual a existência humana se desenvolve.

Em larga medida, a criação da Universidade de Brasília foi produto dessa concepção de universidade que servia de motivação para aquela geração nascida entre os fins do século XIX e as primeiras décadas do século XX composta de pessoas como Anísio Teixeira, Amoroso Costa, Victor Nunes Leal, Darcy Ribeiro, Júlio Mesquita Filho, Fernando de Azevedo e Armando de Sales Oliveira, entre outros. Essas lideranças políticas e intelectuais tiveram papel destacado na criação das primeiras universidades no Brasil entre as décadas de 1930 e 1960. A particularidade da Universidade de Brasília é que, desde o início, a instituição fora concebida totalmente como research university, diferente da USP, por exemplo, cuja fundação se deu a partir da criação da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, que deveria “irrigar” o desenvolvimento do espírito científico por tradicionais instituições de ensino do terceiro grau, algumas que já existiam desde o século XIX. No caso da UnB, desde o início, os cursos deveriam ser estruturados em torno de campos do conhecimento. Algo semelhante iria ocorrer 4 anos mais tarde com a criação da Universidade de Campinas (Unicamp). Assim, na UnB, essa forma de ver e de praticar o ensino assentado sobre áreas do conhecimento e sobre a observação atenta da realidade, deveria orientar até mesmo a implantação de cursos tradicionais como o Direito, a Medicina e as Engenharias. Por essa razão, sua estrutura administrativa inicial foi implantada em torno de Institutos e de Departamentos definidos por áreas do conhecimento e não por supostas profissões, enquanto os cursos foram organizados na forma de créditos a serem cumpridos de maneira interdisciplinar. Nessa concepção, os institutos e os departamentos, refletindo áreas do conhecimento, não deveriam ser vistos como fronteiras, mas como simples indicativos de focos do conhecimento em torno dos quais os cursos eram organizados, enquanto os estudantes, por sua vez, deveriam ser estimulados a ver seu campo de estudo como parte de um universo maior do conhecimento, do qual sua especialidade era apenas uma parte.

A essa concepção pedagógica em termos de substância, somava-se a orientação tutorial dos cursos, isto é, os estudantes eram orientados individualmente por docentes que deveriam cuidar de sua formação. O tutor deveria cuidar desde a orientação na escolha das disciplinas que os estudantes sob sua orientação deveriam frequentar em cada semestre, até ajudar em providências diversas que ajudassem na formação de cada discente. Em um ambiente interdisciplinar a escolha de créditos complementares, em seu conjunto, tem praticamente a mesma importância das matérias centrais dos cursos, permitindo que cada estudante tenha uma formação individualizada, procurando extrair o máximo de suas potencialidades e fazendo com que estudantes, embora recebessem o mesmo diploma, suas habilidades mais voltadas para a cultura, para a história ou para questões sociais ou comerciais pudessem ser desenvolvidas. De forma resumida, para os que militam hoje na docência universitária, o ensino com recurso da tutoria pode ser compreendida como se cada estudante da UnB pertencesse a um programa PET, isto é, pertencesse a um grupo de estudos permanente composto por uma dezena de estudantes orientados sistematicamente por um professor tutor.[11]

Também vale a pena chamar a atenção para a originalidade da concepção administrativa e financeira da Universidade de Brasília. Quando a UnB foi criada em 1962 ficou estabelecido que a universidade seria organizada na forma de uma fundação pública (Fundação Universidade de Brasília – FUB) com autonomia pedagógica e científica e, em larga medida, também financeira, já que foi atribuída à FUB uma larga extensão de terras que se estendia por considerável parte da Asa Norte de Brasília. A administração por meio de uma fundação pública deveria permitir que houvesse mais flexibilidade administrativa como, por exemplo, para a contratação de professores e de funcionários técnico-administrativos pelo Regime CLT, isto é, pelo mesmo regime de trabalho que rege a vida profissional nas indústrias e nas empresas privadas, que empregam cerca de 90% da força de trabalho no Brasil.[12] Do ponto de vista financeiro, a incorporação de considerável extensão de terrenos no Plano Piloto de Brasília ao patrimônio da UnB permitia que, no longo prazo, a universidade dispusesse de uma fonte de recursos que poderia servir para dar sustentação às suas atividades, sem a necessidade de verbas governamentais. Ou seja, esse patrimônio permitiria que a universidade praticamente não dependesse dos recursos públicos para a realização de suas atividades fins. Esse mecanismo era, na verdade, uma adaptação brasileira dos endowments que proporcionam recursos para o funcionamento das grandes universidades americanas. De forma simplificada, nas prestigiosas universidades americanas o endowment é um fundo de investimento que geralmente resulta de doações feitas por indivíduos, por empresas e por organizações de benemerência, que doam esses recursos para universidades que, assim, podem dispor dos ganhos resultantes de investimentos desses fundos no mercado de ativos financeiros para custear as atividades fins da universidade.[13] Hoje, o mercado de capitais no Brasil já atingiu um nível bem avançado de organização e de maturidade mas, no início dos anos 1960, esse mercado era ainda bastante incipiente e precário e, dessa forma, aplicações de recursos financeiros em patrimônio imobiliário era o que caracterizava os investimentos de longo prazo no Brasil. Por essa razão a iniciativa de equipar a UnB com um endowmwnt ganhou a forma de lotes de terrenos na Asa Norte de Brasília, que a universidade poderia construir e obter rendimentos para serem aplicados em suas atividades fins. Também vale lembrar que, na implantação da UnB como uma research university, a cooperação internacional teve papel importante e inovador, tendo facilitado muito o estabelecimento de laboratórios notavelmente modernos em campos como o da Física e da Química. Nas negociações para a obtenção desses laboratórios o professor Georges Landau, que trabalhava diretamente com Darcy Ribeiro, foi figura de destaque. Na realidade cabe reconhecer que a cooperação internacional, e esse professor em particular, continuaram desempenhando papel importante na vinda de professores à UnB, sobretudo dos EUA, como o professor Henry Kissinger já nos fins da década de 1970.

Vale notar que esse conceito de research university, isto é, de universidade com foco na ciência e no desenvolvimento da reflexão e da pesquisa não exclui e não retira a importância da existência de instituições de ensino do terceiro grau. Na realidade, em qualquer país, a quantidade de instituições de ensino do terceiro grau é muito maior do que o número de research universities, inclusive porque o mercado de trabalho é composto muito mais por profissionais com nível superior regular do que por engenheiros, médicos e outros profissionais em condições de construir obras de complexidade extraordinária, ou de desenvolver e aplicar novas técnicas médicas, ou ainda de formular doutrinas sociais e jurídicas para enfrentar casos e situações novas e inusitadas para as sociedades. Por exemplo, na engenharia, a grande maioria dos profissionais é preparada para realizar trabalhos de rotina nas indústrias e na construção de edifícios, pontes ou estradas sem grandes desafios tecnológicos. Apenas uns poucos profissionais vão, efetivamente, trabalhar na construção de novos modelos de aviões supersônicos, de naves e de estações espaciais ou em obras desafiadoras como o Edifício Burj Khalifa, com seus 160 andares e 829 metros de altura. Portanto, o que se argumenta no presente trabalho é que o Brasil, como qualquer nação na modernidade, não pode prescindir da existência de research universities, que façam da prática da ciência e da reflexão uma atividade sistemática capaz de inspirar a formação de profissionais diferenciados e capazes de enfrentar os desafios de construir obras extraordinárias e de ajudar a sociedade a enfrentar as inesperadas e contínuas mudanças nos padrões econômicos, sociais e políticos.[14]

Uma notável inovação da UnB

Entre as inovações acadêmicas mais notáveis na trajetória de seis décadas da UnB, destaca-se a criação do Curso de Bacharelado em Relações Internacionais em 1974. Na realidade, na condição de research university, a criação desse curso seria apenas um passo natural no desenvolvimento da UnB. Tratava-se de incorporar um campo de estudo que se desenvolvia com crescente interesse no mundo acadêmico internacional desde os fins da Primeira Guerra Mundial. Por outro lado, Brasília havia se tornado a capital do País e, como tal, além de receber as representações diplomáticas e de sediar escritórios e representações oficiais das organizações internacionais, com a mudança da capital, a maior parte do jogo da política estava se transferindo rapidamente do Rio de Janeiro para a nova capital. Em consequência, era natural que a Universidade de Brasília – e não outra universidade brasileira – sentisse com mais intensidade os reflexos das transformações em curso no ambiente político, especialmente no que se referia às relações com outros países e, de forma geral, com o ambiente político internacional.

Também vale destacar que, no pós-Segunda Guerra Mundial, o Brasil emergia como ator de relevância em um mundo cada vez mais integrado, seja pelos recursos tecnológicos oferecidos pelos meios de transporte e das comunicações, seja pela atividade econômica onde os fluxos internacionais de comércio e de investimentos se intensificavam rapidamente. Nesse quadro, a universidade brasileira também passava a ser demandada de modo crescente como centro de reflexão e de formação de uma visão que deveria ser diferente da tradição brasileira, marcadamente voltada para si mesma (inward looking) no que tange às suas relações com o meio internacional. Nesse processo, também era preciso formar uma nova geração de profissionais mais sensíveis à interação política, econômica e cultural com o meio internacional. Apesar das dimensões continentais do país, as forças em ação no ambiente internacional tornavam a convivência internacional uma realidade cada vez mais presente na política, nos negócios e até mesmo na vida social das pessoas no Brasil.

Sociologicamente, a mudança da capital, ao transferir as instituições do Estado brasileiro, trouxe também para Brasília uma nova classe de pessoas composta de autoridades, funcionários públicos qualificados, diplomatas brasileiros e estrangeiros, e representantes oficiais das organizações internacionais, ou seja, pessoas com elevados padrões de educação e cultura estavam se transferindo para a nova capital. Dessa forma, rapidamente, formava-se em Brasília um ambiente social e intelectual que passava a determinar novos padrões de demanda de atividades intelectuais condizentes com a instalação da nova capital política da nação. Muito embora as principais empresas jornalísticas, editoras, livrarias e outras organizações voltadas para a cultura e para a difusão do conhecimento continuassem tendo suas sedes no Rio de Janeiro e em outras capitais do país, Brasília passou rapidamente a atrair jornalistas, analistas políticos e outros profissionais que trabalham sobre temas e questões econômicas, políticas e sociais nacionais e internacionais em suas variadas facetas. É nesse ambiente que a Universidade de Brasília foi criada e que iria marcar suas primeiras décadas de atividades, o que ajuda a entender por que a implantação de um Curso de Relações Internacionais era um desenvolvimento natural e necessário.

No Brasil, até os anos 1960, o estudo e a reflexão sobre as questões internacionais eram feitos basicamente por diplomatas, por dever de ofício. No meio universitário temas relativos à política internacional eram estudados por poucos acadêmicos, sobretudo no Rio de Janeiro, geralmente associados a disciplinas como Direito, História e Política. Dessa forma, introduzir na academia o estudo e a reflexão sobre o meio internacional de forma organizada e sistematizada era uma necessidade crescente desde o pós-guerra. No mundo, o ambiente acadêmico das grandes potências fora fortemente influenciado pelos impactos da Primeira Guerra Mundial, que trouxeram como consequência imediata o despertar do interesse de estadistas e de estudiosos de todos os tipos no sentido de melhor entender o meio internacional. Percebia-se que não bastava buscar culpados para a grande guerra de 1914-18. Por mais que ações equivocadas pudessem ser identificadas, por vezes revelando até irresponsabilidade de algumas lideranças políticas, com certeza tais ações não eram suficientes para explicar por que aquele conflito havia ganhado as proporções que atingiu e muito menos os desdobramentos políticos, econômicos e sociais que se seguiram à Primeira Guerra Mundial. Epistemologicamente, os acontecimentos assumiram proporções que, de muitas formas, levaram a questionar a capacidade de interpretar adequadamente os acontecimentos por meio dos recursos analíticos utilizados tradicionalmente em campos do conhecimento como o Direito Internacional, a História, a Filosofia Política e até mesmo a partir dos novos conceitos trazidos pelo campo de estudo da Sociologia aos quais as reflexões sobre política internacional apareciam associadas.

Primeira geração de professores: diplomatas e acadêmicos

Esse quadro mostra que a implantação do campo de estudo das Relações Internacionais na Universidade de Brasília foi favorecida por alguns fatores que ajudaram a viabilizar seus primeiros anos. A primeira delas, já amplamente comentada, residia no fato de que, como uma research university, a UnB era uma instituição sensível à incorporação de áreas do conhecimento que tornassem a universidade mais alinhada com os desenvolvimentos em curso no mundo e na sociedade brasileira. O segundo fator, derivava diretamente das circunstâncias decorrentes da mudança da capital para Brasília.

Em particular a transferência do Ministério das Relações Exteriores para Brasília permitiu que a primeira geração do Curso de Bacharelado em Relações Internacionais da Universidade de Brasília contasse com a contribuição de um significativo número de diplomatas em seu corpo docente. Como mencionado, até a primeira metade da década de 1970, os diplomatas constituíam o segmento mais significativo da vida intelectual brasileira que, por dever de ofício, acompanhava os acontecimentos na política internacional e que, assim, estudava relações internacionais de forma mais estruturada. A composição do corpo docente dos anos iniciais do Curso de Bacharelado em Relações Internacionais da UnB é bastante reveladora desse fato.

Professores diplomatas

Adriano Benayon

Carlos Henrique Cardim

Celso Amorim

José Guilherme Merquior

José Osvaldo de Meira Pena

Luiz Augusto de Castro Neves

Marcio Florêncio Nunes Cambraia

Rubens Ricupero

Sérgio Amaral

Professores não diplomatas

Ana Maria Villela

Antonio Augusto Cançado Trindade

David V. Fleischer

Francisco Rezek

José Carlos Brandi Aleixo (Primeiro Chefe do Departamento de Ciência Política e

      Relações Internacionais)

Lytton Leite Guimarães

Maria Izabel Valladão de Carvalho

Octaciano Nogueira

Walter Costa Porto

Os diplomatas, além de sua formação original, alguns haviam estudado em prestigiosas instituições como a London School of Economics, ou na Sorbonne em Paris, mas o que mais se afigurava precioso naquele momento era sua experiência na atividade diplomática, que exigia a observação sistemática dos desenvolvimentos em curso na política internacional. Na realidade, esses professores vindos da diplomacia, mesmo sem o saberem claramente, exerciam um papel importante na formação das primeiras gerações de estudantes. Eram verdadeiras fontes de inspiração para os estudantes. Em larga medida, pode-se dizer que para a maioria dos estudantes, esses diplomatas eram o que havia de mais perto e de mais parecido com figuras como Rio Branco, Talleyrand ou Churchill que, um dia devem ter lido autores como Tucídides, Grotius e Kant, e observado com atenção as grandes lições da história e, se fossem jovens estudantes nos fins do século XX, deveriam estar lendo também autores como Morgenthau, Hedley Bull e Raymond Aron, procurando decifrar as misteriosas forças que movem a política internacional. Essa percepção, no entanto, não era muito clara mesmo para os professores, fossem diplomatas ou não, inclusive porque esses professores pertenciam a uma geração que não havia sido formada em um ambiente acadêmico de uma research university, onde o interesse pelo conhecimento é que move o interesse pelos estudos e não a busca por uma profissão. Com efeito, em reuniões do Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais emergia com frequência o debate sobre o destino profissional dos alunos do curso e um dos professores que mais se interessavam por essas discussões era justamente Rubens Ricupero, um diplomata que já começava a ganhar notoriedade como homem público. Em relação aos professores não diplomatas, sua formação era variada, poderiam ter sua formação básica em Direito, Ciência Política ou em algum campo das Ciências Sociais, mas tinham também larga experiência em agências governamentais e alguns haviam obtido titulação acadêmica no exterior como o Professor José Carlos Brandi Aleixo – que foi o primeiro Diretor do Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da UnB – cujo grau de PhD em Ciência Política havia sido obtido na George Washington University (EUA) ou como o Professor Cançado Trindade que havia se doutorado em Direito Internacional pela Universidade de Cambridge (U.K.). Somente a partir da segunda geração de docentes do Curso, uma década depois da criação do Bacharelado em Relações Internacionais, o corpo docente passou a ser cada vez mais constituída de professores com formação mais específica em Relações Internacionais. Vale registrar ainda a valiosa colaboração de alguns professores nesse período inicial, que ministravam aulas regulares no Curso de Bacharelado em Relações Internacionais, muito embora não fizessem parte do quadro de docentes do Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais, como Amado Cervo e Flávio Sombra Saraiva, que eram professores do Departamento de História. Foi apenas em meados da década de 1980 que a UnB e a PUC do Rio de Janeiro criaram no Brasil os primeiros cursos de pós-graduação em Relações Internacionais em nível de Mestrado.

Cabe destacar um fato institucional importante no processo de implantação do Curso de Bacharelado em Relações Internacionais na UnB. Como parte do processo de instalação do curso em 1974, foi criado o Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais e, apesar da denominação, o Departamento só oferecia o Curso de Bacharelado em Relações Internacionais, uma situação que permaneceu até fins da década de 1980, quando foi criado o Bacharelado em Ciência Política. Durante esse período a Ciência Política era estudada na UnB como uma opção do Curso de Ciências Sociais, onde o aluno, além da Ciência Política, podia optar por Antropologia, Sociologia ou Serviço Social. Esse fato se afigura importante incluir neste breve relato porque ajuda a explicar por que o campo de estudo das Relações Internacionais no Brasil, ao invés de ser estudado como uma sub-área da Ciência Política – como ocorre nas universidades dos EUA – o estudo das Relações Internacionais nasceu na UnB como área distinta dentro do sistema universitário e esse padrão acabou sendo adotado pelas universidades brasileiras. Nos anos 1990, quando o interesse por esse campo de estudo se disseminava pelas grandes universidades do país, o processo de credenciamento de novos cursos de Relações Internacionais feito pelo Ministério da Educação foi estruturado a partir da experiência da Universidade de Brasília, contando, inclusive, com os quadros da UnB para compor as Comissões de Avaliação e Credenciamento das propostas de criação de novos cursos de Relações Internacionais. Dessa forma, esses desenvolvimentos ajudam a explicar por que, diferentemente de outros países, o estudo das Relações Internacionais no Brasil foi estruturado como campo de estudos distinto da Ciência Política.

Criando um ambiente acadêmico

Um fator que ajudou de forma notável a viabilizar o Curso de Relações Internacionais da Universidade de Brasília foi o suporte proporcionado pela Administração Central da UnB na formação do ambiente acadêmico em torno do tema das Relações Internacionais. Na área das Humanidades e nas Ciências Sociais, muito mais do que nas ciências físicas, o ambiente de estudo, de debate e de reflexão é fundamental. Estar em contacto com os pensadores mais relevantes de seu tempo, seja por meio de obras publicadas ou, se possível, por meio de interação pessoal por meio de aulas, seminários e palestras é o que proporciona os referenciais e a inspiração para a educação intelectual. As origens dos termos “lecturer” e “reader” estão associados ao fato de que fazer a leitura da Bíblia ou de obras importantes era uma forma de ensinar.[15] Antes do surgimento da imprensa com tipos móveis de Gutenberg, o livro era um bem precioso e os mestres que os possuía, por meio da leitura, dividia o conhecimento com seus estudantes. Hoje, apesar de todas as facilidades, o acesso a livros e autores continua sendo fator importante da difusão e do avanço do conhecimento.

Na segunda metade da década de 1970 o diplomata Carlos Henrique Cardim foi levado a integrar os quadros da UnB não apenas para ministrar disciplinas no Curso de Relações Internacionais, mas também com a missão de ajudar a construir o ambiente acadêmico necessário ao desenvolvimento das Relações Internacionais como campo de estudo. Assim, na condição de Decano de Extensão e de Presidente da Editora da UnB, o diplomata e professor Carlos Henrique Cardim deveria desenvolver um programa de professores visitantes mundialmente reconhecidos e, paralelamente, elaborar e implementar um amplo programa editorial que, juntos, pudessem proporcionar acesso aos estudos e às reflexões mais fundamentais, e também mais atualizadas, no campo de estudos da política internacional. Vale ressaltar que, ao criar esse ambiente acadêmico em torno do Curso de Relações Internacionais, essas atividades de interação ativa com a comunidade acadêmica internacional foram importantes também para reforçar outras áreas do conhecimento na UnB. Na realidade, esse programa de professores visitantes e de publicação de obras universalmente importantes trouxe como consequência a expansão sem precedentes da influência da UnB no ambiente acadêmico nacional. Entre os autores notáveis que participaram desses programas podem ser citados Karl Deutch, Raymond Aron, Ralph Dahrendorf, Leszek Kolakowski, John Kenneth Galbraith, Samuel Finer, Henry Kissinger e Norberto Bobbio, entre muitos outros. Alguns eram, na verdade, pensadores reconhecidos não somente no estudo da política internacional, mas também na Sociologia, no Direito, na História, na Filosofia Política e em muitas outras áreas afins. A vinda desses notáveis pensadores ao Brasil, trazidos pela UnB, permitia que outras universidades brasileiras, especialmente de São Paulo e do Rio de Janeiro, também pudessem organizar encontros e seminários desses professores visitantes com seus professores e estudantes, beneficiando-se assim dessa interação da UnB com o pensamento e com as visões mais essenciais e mais atualizadas no estudo e na reflexão sobre os desenvolvimentos na política e nas relações entre as nações.[16]

Quanto ao programa editorial, além da coleção “Pensamento Político”, que incluiu mais de 70 títulos de autores clássicos e contemporâneos, a Editora UnB, publicou dezenas de títulos e autores importantes na História, na Filosofia, e nas Ciências em geral. Entre os autores podem ser destacados, além das  obras dos pensadores que participaram do programa de professores visitantes, Carl Sagan, Heródoto, Max Weber, Karl Popper, Anthony Giddens, Jacob Bronowski, Isaiah Berlin, Giovanni Sartori, Oswald Spengler, Fustel de Coulanges entre muitos outros autores de amplo interesse para a cultura e para o pensamento científico de uma forma geral. Vale notar também que por meio de convênio com a Câmara dos Deputados, a Editora UnB passou a publicar dois periódicos: Relações Internacionais e Documentação e Atualidade Política. Esses periódicos procuravam divulgar artigos de relevância para o estudo da Ciência Política e das Relações Internacionais. Esses periódicos se concentravam na divulgação de documentos, estudos e análises associados a fatos notavelmente marcantes para a compreensão de questões centrais da política e dos fenômenos internacionais. Também foi nesse período que a revista Humanidades foi lançada sob uma perspectiva mais ampla da cultura universal. O referencial central para o trabalho editorial de Humanidades eram o elevado nível de seus autores e a reflexão sobre temas perenes, como fazia a revista Dædalus, nos EUA, que procurava divulgar reflexões e debates sobre temas essenciais e mais universais da história, da filosofia, das ciências e da cultura. De uma forma sintética, pode-se dizer que, no período compreendido entre a segunda metade dos anos 1970 e a primeira metade da década de 1980, a Editora UnB fez no Brasil algo semelhante ao que a “Revista de Occidente” (Espanha), e o “Fondo de Cultura Económica” (México) faziam para os países de língua espanhola.

Naqueles anos, essa intensa atividade intelectual tornou a UnB, verdadeiramente, o centro das atenções do mundo acadêmico nacional, atraindo para suas atividades figuras notáveis do cenário intelectual nacional como Gilberto Freyre, Afonso Arinos de Melo Franco, Hélio Jaguaribe, Fernando Mourão, Antonio Paim, Miguel Reale, José Honório Rodrigues, Vicente Marotta Rangel, entre muitos outros. Nesse ambiente, o Curso de Bacharelado em Relações Internacionais, além dos benefícios imediatos decorrentes dessas iniciativas, o curso passou a atrair estudantes de todo o Brasil, inclusive de tradicionais polos de atividade intelectual como o Rio de Janeiro e São Paulo.

Por vários anos, até fins da década de 1980 o vestibular do Curso de Relações Internacionais tornou-se um dos mais concorridos entre os cursos da UnB e, até a virada do século, a proporção de estudantes matriculados no curso vindos de outros Estados superava os 3/4 do total. Nesse sentido, vale mencionar também o fato de que, em larga medida, o sucesso do curso ajudou a transferir para Brasília, na década de 1990, o Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI), que publicava desde os fins da década de 1950 a Revista Brasileira de Política Internacional (RBPI) criada por Cleantho de Paiva Leite. Esse periódico, tal como a Foreign Affairs, nos EUA, publicava artigos e documentos relevantes para a compreensão da política internacional, servindo também para fornecer elementos para a discussão de dilemas e de perspectivas para a política exterior do Brasil. Nesse processo de transferência para Brasília do IBRI e da RBPI é importante destacar o apoio institucional do Ministério das Relações Exteriores e as tratativas conduzidas pelos acadêmicos José Carlos B. Aleixo e de Amado Cervo e pelo diplomata e professor Paulo Roberto de Almeida, este último tornou-se o primeiro Editor-Chefe da publicação após a transferência para Brasília.

Considerações finais

Neste ano em que a Universidade de Brasília celebra 60 anos de existência, o objetivo do presente texto foi o de apresentar de forma resumida a criação do Curso de Bacharelado em Relações Internacionais, que ocorreu de modo natural dentro do conceito de research university. Este ensaio procurou explicar também de que modo a contribuição da UnB no estabelecimento da área de estudos das Relações Internacionais foi importante e inovador para o sistema universitário brasileiro, em alinhamento com as demandas que viviam grandes transformação no país.

Na década de 1990 o interesse pelo estudo das Relações Internacionais tornara-se crescente e generalizado no Brasil e, em pouco tempo, dezenas de cursos foram credenciados formalmente pelo MEC, inclusive nas grandes e tradicionais universidades brasileiras, estabelecendo assim uma verdadeira comunidade acadêmica brasileira de estudiosos das Relações Internacionais. Na medida do possível, a Universidade de Brasília procurou ajudar nesse processo contando apenas com a dedicação e o exemplo de um pequeno grupo de docentes , além das trajetórias de sucesso de vários de seus alunos que se qualificaram para atuar nas instituições nacionais  e internacionais. Hoje, essa comunidade conta com mais de uma centena de cursos de graduação e por algumas dezenas de programas de pós-graduação espalhados pelo país, além de contar também com uma Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI) desde 2004. Como um empreendimento social, o Curso de Relações Internacionais na UnB nasceu como fruto de uma visão de sonhadores de dentro e de fora da universidade, mas eram sonhadores capazes de ver com grande realismo os desenvolvimentos e as demandas de uma sociedade e de um mundo em transformação. Hoje é um programa estabelecido e reconhecido, mas é apenas mais um curso de graduação e de pós-graduação dentre muitos outros. Espera-se, no entanto, que sua história possa ser inspiradora para os que integram o campo de estudo das Relações Internacionais na UnB, e também fora dela. Os tempos são outros e os desafios também são outros.

Thomas Mallory encerra sua versão do que teria sido a saga brilhante de Camelot, com seus cavaleiros bravos e virtuosos, que se reuniam em torno de uma távola redonda, movidos por um sonho: “Percival colocou suavemente a mão no ombro de Lancelot. A luz foi desaparecendo gradativamente. Ambos teriam ficado imersos nas sombras, não fora um feixe luminoso de luz que lhes banhou o semblante, quando cheios de fé e esperança, voltaram os olhos extasiados para as alturas …[17] Uma verdadeira research university só se sente bem diante de desafios e os grandes desafios têm sempre as alturas como referencial e como inspiração.

 

 [1] Este ensaio foi escrito como parte das comemorações dos 60 anos da Universidade de Brasília, tema da Semana Universitária da UnB (29/Agosto a 2/Setembro/2022).

[2] S. Schwartzman, no livro Um Espaço para a Ciência. MCT/CNPq/CEE, Brasília, 2001 (p.147) relata que a Universidade do Rio de Janeiro, criada em 1920, reunia as Escolas de Engenharia, de Medicina e de Direito que, embora de qualidade bastante reconhecida, eram tipicamente, instituições de ensino do terceiro grau.

[3] Conforme os historiadores da educação, a palavra missão, evidenciava que o Brasil era ainda visto como uma nação de padrões educacionais precários e, efetivamente, a grande maioria dos integrantes dessa missão francesa não passava de jovens promissores, ainda sem uma obra acadêmica e científica.

4] Uma obra recente escrita por Andrea Wulf (A Invenção da Natureza: A Vida e as Descobertas de Alexander Von Humboldt, 2019) procura mostrar que Humboldt pode ser considerado o verdadeiro pai do ambientalismo de nossos dias. Com suas descobertas, fruto de expedições pelo mundo, escalando os vulcões, cruzando a Sibéria, e navegando pela misteriosa e ameaçadora Amazônia, teria gerado inveja em Napoleão Bonaparte, inspirado Bolívar em sua revolução e motivado Darwin a zarpar com seu navio Beagle para realizar sua memorável viagem até as Ilhas Galápagos.

[5] Alfredo T. Tomalsquim, Eistein no Rio de Janeiro: Impressões de Viagem. Parcerias Estratégicas, no. 8, Maio/2000. (313-330).

[6] Richard Feynman ganhou o Prêmio Nobel de Física em 1965. Sua experiência no Brasil, especialmente no que se refere ao ensino voltado para a ciência, é narrada no livro Deve Ser Brincadeira, Sr. Feynman, Editora UnB, 2000.

[7] Na grande lápide vertical do túmulo de Thomas Jefferson, em Charlottesville, na Virgínia, está escrito “Here was buried Thomas Jefferson Author of the Declaration of American Independence, of the Statute of Virginia for Religious Freedom, and Father of the University of Virginia”.

[8] Em um depoimento Darcy Ribeiro reconhece a grande influência exercida sobre ele por Anísio Teixeira em relação à concepção de educação superior e identifica Carlos Lacerda e Dom Helder Câmara como os principais opositores a serem vencidos para a criação da UnB. (Darcy Ribeiro, Confissões. Cia. das Letras, 1997).

[9] Refere-se ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) e à Campanha (hoje Coordenação) Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) que estavam sob o comando de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.

[10] Esse relato é feito por Richard Feynman no capítulo intitulado “O Americano outra Vez” de seu livro Deve ser Brincadeira Sr. Feinman (op.cit. pags. 225-245).

[11] Atualmente os programas PET (Programa de Educação Tutorial) são patrocinados pela CAPES, que estabelece as regras para o seu funcionamento. Originalmente a sigla PET designava Programa Especial de Treinamento, cujo objetivo era formar estudantes em nível de excelência, preparando-os principalmente para seguirem para programas de pós-graduação.

[12] Nos EUA existe o sistema de tenure que o professor pode obter geralmente após 7 a 10 anos de atividade acadêmica relevante. O tenure significa estabilidade e ampla liberdade acadêmica.

[13] De acordo com o Office of Communications da Universidade de Princeton (PAW Archives) em 2021 o endowmwnt da Universidade de Princeton totalizava cerca de US$ 37 bilhões. Assim, na hipótese de que esse endowment tivesse proporcionado um rendimento de 10% ao longo do ano, Princeton teria tido algo como US$ 3,7 bilhões para investir em programas e projetos de pesquisa, bolsas de estudo, professores visitantes, criação de cátedras acadêmicas e outras atividades fins da universidade.

[14] Nos EUA, para cada universidade como o MIT, Stanford, UCLA, Johns Hopkins, ou como as universidades da “Ivy League” há dezenas de “instituições de ensino do terceiro grau” e, também no Brasil, as estatísticas recentes mostram que há um total de 2.364 instituições de ensino superior, das quais apenas 69 universidades são federais e 40 são universidades estaduais. Além disso, não quer dizer que todas essas universidades públicas brasileiras devessem ser estruturadas como research universities.

[15] Em português esses termos geraram a expressão “lente” que, nas primeiras décadas do século XX, era frequentemente usado para designar “professor” nas instituições de ensino superior.

[16] O programa de Professores Visitantes se estendeu por vários anos (1977-1984) e incluiu “scholars” de várias áreas como a economista Joan Robinson, o historiador Peter Calvocoressi, o educador Theodore Hesburgh, e o escritor Mario Vargas Llosa.

[17] T. Mallory, Os Cavaleiros do Rei Arthur, Edições e Publicações Brasil Editora , S. Paulo, 1963.

 

*Eiiti Sato, Dr. é formado em Economia (FAAP, S. Paulo); mestre em Relações Internacionais (Universidade de Cambridge, U.K.), e doutor em Sociologia (USP). É professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB desde 1983, dedicando-se ao ensino e à reflexão sobre filosofia, teoria e história das Relações Internacionais. Foi diretor do Instituto de Relações Internacionais da UnB (2006-2014), e foi um dos fundadores da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI), tendo sido seu primeiro presidente (2005-2007).