A importância de assumir riscos
“Coragem não é a ausência de medo, mas agir apesar dele.”
Cristiana Pinciroli
Poucos assuntos mereceram tanto espaço na mídia especializada nos meses de fevereiro e março como a pré-candidatura de três possíveis presidentes da República cogitados pelo PSD. Incontáveis matérias foram publicadas sobre o fato em si, além de inúmeras entrevistas concedidas pelo presidente do PSD, Gilberto Kassab, e pelos três governadores cujos nomes eram indicados pelo partido: Ratinho Junior, do Paraná, Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, e Ronaldo Caiado, de Goiás.
Em termos de visibilidade, a estratégia do partido mostrou-se imbatível, embora nem sempre o tom das matérias vindas a público fossem favoráveis. Muitas apontavam razoável grau de dúvida do partido para tomar a decisão. Outras criticavam a demora na definição do nome, alegando que nesse tempo outros nomes com a candidatura já posta levavam vantagem.
Quando, finalmente, o partido se definiu pelo nome de Ronaldo Caiado no dia 30 de março, outra enxurrada de matérias, muitas delas contendo dois tipos de críticas: enquanto algumas eram dirigidas ao nome escolhido, outras reforçavam a demora da tomada de decisão, argumentando que o fator tempo − normalmente importante − assume caráter ainda mais relevante num ano eleitoral com a existência de uma Copa do Mundo de Futebol no meio do caminho, que deverá concentrar a atenção de parcela considerável da população.
Enquanto acompanhava a marcha dos acontecimentos e dos comentários que eram veiculados, refleti sobre a dificuldade da tomada de uma decisão de tal magnitude, bem como dos riscos inerentes a tal decisão.
Inevitavelmente, lembrei-me de meus tempos de atleta e dos estudos sobre criatividade, áreas em que o surgimento de soluções criativas, muitas das quais novas, inesperadas e desconhecidas, despertavam elevado grau de resistência, requerendo de seus proponentes muita coragem para agir, promovendo as mudanças necessárias.
Mudar não é fácil para ninguém. Essa afirmação serve para qualquer dimensão de mudança. Se já não é fácil abandonar antigos hábitos em ações e atividades caracterizadas pela simplicidade, em situações de maior complexidade é ainda mais difícil.
Isso porque toda mudança implica em deixar de lado práticas há muito utilizadas, cujas consequências são sobejamente conhecidas, para substituí-las por novas práticas, sem que se conheçam os impactos e as consequências delas advindas. Em outras palavras, há um risco inerente a essa mudança e a maior parte das pessoas não está preparada para assumir riscos.
Floriano Serra, destacado executivo do setor farmacêutico, foi um pioneiro entre os brasileiros que se aventuraram no estudo da criatividade. No livro Por que não?, ele afirma que para desenvolver o potencial criativo é preciso aprender a desaprender, que consiste em rever, questionar, atualizar ou descobrir novos valores, crenças, preconceitos, paradigmas e percepções.

Esses valores, crenças, preconceitos, paradigmas e percepções funcionam como uma espécie de lentes por meio das quais cada um de nós enxerga o mundo.
O problema é que às vezes essas lentes são tão potentes que ao invés de nos permitirem enxergar a realidade como é, elas deturpam a realidade toda vez que essa realidade conflita com os valores, as crenças, os preconceitos, os paradigmas e as percepções embutidos nessas lentes.
E por que essas lentes são, às vezes, tão potentes?
Porque foram formadas e sedimentadas ao longo de toda a vida, sendo-nos transmitidas muitas vezes por pessoas ou instituições pelas quais temos grande apreço. Sendo assim, essas lentes atuam como bloqueadoras do nosso potencial criativo.
Floriano Serra identifica seis fontes por trás dessas lentes, por ele chamadas de “pês” bloqueadores: pais, professores, patrões, proibições, preguiça e perfeição (busca obsessiva).
Pessoas ou instituições que não tiverem coragem de rever, questionar, atualizar, descobrir ou ressignificar novos valores, crenças, preconceitos, paradigmas e percepções, muitos dos quais transmitidos por nossos pais, parentes, pela antiga e admirada professora do jardim de infância – a “tia” – dificilmente conseguirão sair da caixa, permanecendo a vida toda fazendo as coisas como sempre foram feitas.
Com essas reflexões em mente, passei a valorizar ainda mais a coragem do PSD, por ter assumido o risco de mudar, inovando no método de escolha de seu candidato à presidência da República, numa tentativa de oferecer ao eleitorado uma alternativa à polarização que tem dominado o cenário político brasileiro nos últimos anos.
Encerro este artigo com um texto cuja autoria desconheço, mas que considero de uma força extraordinária para explicar a importância de nos preparamos para assumir riscos.
Rir é arriscar-se a parecer louco.
Chorar é arriscar-se a parecer sentimental.
Estender a mão para o outro é arriscar-se a se envolver.
Expor seus sentimentos é arriscar-se a não ser amado.
Expor suas ideias e sonhos ao público é arriscar-se a perder.
Viver é arriscar-se a morrer.
Ter esperança é arriscar-se a sofrer decepção.
Tentar é arriscar-se a falhar.
Mas é preciso correr riscos.
Porque o maior azar da vida é não arriscar nada.
Pessoas que não arriscam, que nada fazem,
nada são.
Elas podem estar evitando o sofrimento e a tristeza.
Mas assim não podem aprender, sentir, crescer,
mudar, amar, viver.
Acorrentadas às suas atitudes, são escravas.
Elas abriram mão de sua liberdade.
Só a pessoa que se arrisca é livre.
Arriscar-se é perder o pé por algum tempo.
Não se arriscar é perder a vida.
Referências
MACHADO, Luiz Alberto e MACHADO, Guga. Das quadras para a vida: lições do esporte nas relações pessoais e profissionais. São Paulo: Trevisan Editora, 2028.
PINCIROLI, Cristiana (com a colaboração de Pedro Pinciroli Júnior). Esporte: um palco para a vida. São Paulo: Primavera Editorial, 2021.
SERRA, Floriano. E por que não? São Paulo: Editora Gente, 1992.
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