Londres e o nascimento da Economia Moderna[1]
1. Considerações iniciais
A história da Economia Moderna, enquanto Ciência Social, tem em Londres, capital do Reino Unido (RU), o seu ponto de inflexão decisivo. Capital do maior império da era moderna, centro financeiro internacional desde o século XVIII e polo intelectual do mundo ocidental, Londres constituiu o ambiente histórico no qual as grandes ideias econômicas ganharam forma teórica, método científico e projeção internacional.
Não por acaso, foi na capital inglesa que se consolidaram editorial e intelectualmente três das obras mais influentes da história do pensamento econômico. A Riqueza das Nações (1776), de Adam Smith (1723-1790), estabeleceu os fundamentos do liberalismo econômico e inaugurou a Economia Moderna. O Capital (1867), de Karl Marx (1818-1883), teve em Londres o principal espaço intelectual de elaboração, maturação teórica e difusão internacional de sua crítica ao capitalismo e de sua defesa do socialismo científico. Já A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (1936), de John Maynard Keynes (1883-1946), revolucionou o pensamento econômico do século XX ao fundar a Macroeconomia e redefinir o papel do Estado nas economias capitalistas.
Essas três obras fundamentais de Economia, associadas editorial, intelectual e historicamente a Londres, moldaram sistemas econômicos, políticas públicas e debates teóricos que atravessaram séculos e continuam a influenciar economistas, políticos, empresários e trabalhadores no século XXI.
- Londres é a cidade europeia que pensou a Economia
Londres não foi apenas o local de publicação de grandes livros de Economia; foi o espaço urbano no qual a Economia Moderna foi observada, analisada e reinterpretada empiricamente. Ao longo de mais de dois séculos, a cidade europeia consolidou-se como centro intelectual, político e financeiro do mundo ocidental.
O Big Ben, principal cartão postal de Londres, é símbolo do tempo histórico e da estabilidade institucional britânica, representa o Estado moderno que sustentou tanto o liberalismo clássico de Adam Smith quanto às reflexões críticas de Karl Marx e as propostas reformistas de John Maynard Keynes. O Parlamento britânico, localizado no Palácio de Westminster, foi cenário direto das discussões sobre legislação trabalhista, comércio internacional e política fiscal analisadas por Marx e Keynes.
Os tradicionais ônibus vermelhos de dois andares (double-decker buses), ícones da modernidade urbana desde o início do século XX, remetem à consolidação de Londres como metrópole global, cenário essencial para a observação do desemprego, das flutuações econômicas e das crises do capitalismo analisadas por Keynes.
A British Library, especialmente quando integrada ao British Museum no século XIX, ocupa lugar central na história do pensamento econômico. Karl Marx passou anos em suas dependências, analisando estatísticas, relatórios industriais, documentos parlamentares e as obras dos economistas clássicos, elaborando parte substancial de O Capital. Atualmente, a British Library abriga cerca de 170 milhões de livros, constituindo-se em um dos espaços mais emblemáticos da produção intelectual da economia mundial.
As ruas, praças, cafés, pubs e livrarias de Londres, especialmente nas regiões de Soho, Bloomsbury e Westminster, foram frequentadas por Adam Smith, no século XVIII, em debates sobre moral, filosofia e protecionismo; por Karl Marx, no século XIX, em contato direto com a realidade da Londres industrial; e por Keynes, no século XX, entre universidades, bancos e o governo britânico. Londres foi, portanto, mais do que um cenário, foi agente ativo da construção da Ciência Econômica.
Além disso, Londres foi a capital de um império colonial com presença em quatro continentes, como os Estados Unidos da América (EUA) e o Canadá (América), a Índia e Hong Kong (Ásia), a África do Sul e o Egito (África), além da Austrália e da Nova Zelândia (Oceania). O Império Britânico disseminou, por décadas, os hábitos capitalistas, a língua inglesa e o poder monetário da libra esterlina.
- Os livros fundamentais da Economia associados a Londres
3.1. A Riqueza das Nações, de Adam Smith
O filósofo e economista escocês Adam Smith é reconhecido como o pai da Economia Moderna. Nascido em 5 de junho de 1723, em Kirkcaldy, na Escócia, Smith estudou Filosofia Moral na Universidade de Glasgow e, posteriormente, na Universidade de Oxford, no Balliol College, entre 1740 e 1746, período em que esteve frequentemente em Londres.
Com a publicação de An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, em 9 de março de 1776, ano da independência dos EUA, Adam Smith consolidou-se como o primeiro grande economista da história. Publicada em Londres, a obra rompeu com o mercantilismo e criticou parcialmente os economistas fisiocratas e apresentou conceitos centrais como a divisão do trabalho, a lei da oferta e da demanda, a livre concorrência, o interesse individual e a “mão invisível” do mercado.
Em passagem clássica, Smith afirma: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse” (SMITH, 1983, p. 50).
A Riqueza das Nações foi publicada em dois volumes com cinco livros e exerceu influência duradoura sobre políticos, como John Adams, o primeiro vice-presidente e o segundo presidente dos EUA, e economistas, incluindo Marx e Keynes. Com 32 capítulos, durou 12 anos para ser publicado, de 1764 em Toulouse até 1776 em Londres.
Luiz Alberto Machado enfatiza, no livro Viagem pela Economia (2019, p. 78): “muito do que se fala ou se escreve a respeito de Smith e de outros grandes pensadores não é exatamente o que eles pensaram ou escreveram, mas sim a interpretação, nem sempre precisa, de uma terceira pessoa. Daí a recomendação, contida também na introdução de Winston Fritsch, de que no estudo da história do pensamento econômico, nada substitui o original” .
Em seguida, na mesma página, Machado comenta: “O número de ideias extraordinárias contidas em A Riqueza das Nações é enorme, começando pelo entendimento do funcionamento da economia (livros 1 a 3), passando por reflexões sobre a economia (livros 4 e 5), incluindo uma discussão acerca do papel do Estado na economia”.
Uma das principais lições de Smith é sobre as vantagens da divisão do trabalho (division of labor). Smith usou o famoso exemplo dos trabalhadores em uma pequena fábrica de alfinetes, em Kirkcaldy, pequena e portuária cidade escocesa, para descrever os benefícios criados pela divisão do trabalho, destacando “em primeiro lugar, o aumento da destreza de cada trabalhador; em segundo, à poupança daquele tempo que, geralmente, seria costume perder ao passar de um tipo de trabalho para outro; finalmente, à invenção de um grande número de máquinas que facilitam e abreviam o trabalho, possibilitando a uma única pessoa fazer o trabalho que, de outra forma, teria que ser feito por muitas” (SMITH, 1983, p. 43).
Com Smith aprendemos, portanto, que o trabalho é um conjunto de atividades produtivas ou criativas, que o ser humano exerce para atingir um determinado fim. Já a divisão do trabalho faz com que o trabalhador produtivo adquira, com a tarefa repetitiva, uma agilidade maior e com isso fique treinado na execução de seus movimentos, provocando assim uma diminuição do tempo gasto e um aumento na produção.
3.2. O Capital, de Karl Marx
O filósofo, sociólogo, jornalista e economista alemão Karl Marx, em parceria intelectual com o filósofo e sociólogo alemão Friedrich Engels, é considerado o fundador do Socialismo Científico. Karl Henrich Marx nasceu em 5 de maio de 1818, na cidade de Trier, então parte do Reino da Prússia (atual Alemanha).
A principal obra de Karl Marx é Das Kapital: Kritik der politischen Ökonomie. Teve o Livro I publicado originalmente em alemão, em 1867, na cidade de Hamburgo, com tiragem inicial de mil exemplares. Contudo, foi em Londres, onde Marx viveu por mais de três décadas, que O Capital encontrou seu ambiente intelectual decisivo. Na capital britânica, Marx realizou extensas leituras, pesquisas empíricas e reflexões teóricas, sobretudo na British Library, utilizando o capitalismo industrial inglês como base empírica de sua crítica à exploração do trabalho, à desigualdade social e ao processo de acumulação do capital.
A tradução inglesa de O Capital, publicada em Londres em 1887, foi um grande sucesso editorial e desempenhou papel central na difusão internacional da obra, consolidando sua influência no mundo anglófono. Assim, embora publicada inicialmente em Hamburgo, O Capital foi pensado, amadurecido e universalizado a partir de Londres.
A luta de classes entre a burguesia e o proletariado no Reino Unido constitui o eixo central da análise de Marx, servindo como fundamento teórico e político para a conscientização da classe trabalhadora e para a organização da revolução proletária. Para Marx, esse conflito estrutural, inerente ao modo de produção capitalista, deveria conduzir à superação da propriedade privada dos meios de produção e à sua substituição pela propriedade coletiva, sob a forma de propriedade social ou estatal, característica do modo de produção socialista.
Karl Marx chegou a Londres em 1849, acompanhado de sua esposa, Jenny von Westphalen, e de suas filhas, estabelecendo-se definitivamente na capital britânica após o fracasso das Revoluções de 1848 no continente europeu. Marx faleceu em Londres em 1883, quando a cidade ainda se afirmava como o principal centro econômico, político e cultural do mundo capitalista, exercendo influência decisiva sobre as dinâmicas do comércio internacional, das finanças e da produção intelectual do século XIX.
3.3. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de John Maynard Keynes
Publicado em Londres, em 4 de fevereiro de 1936, The General Theory of Employment, Interest and Money, de John Maynard Keynes, revolucionou o pensamento econômico ao demonstrar que os mercados não garantem automaticamente o pleno emprego.
John Maynard Keynes nasceu em 5 de junho de 1883, na cidade de Cambridge, na Inglaterra. The General Theory é considerada uma das três mais importantes obras de Economia de todos os tempos e mudou o rumo do mundo. A obra revolucionária de Keynes lançou as bases conceituais da Macroeconomia.
A grande obra de Keynes, em língua inglesa, foi iniciada em 1930 e foi publicada pela primeira vez em Londres em 1936. No prefácio, Keynes adverte (1983, p. 3): “Este livro é dirigido a meus colegas economistas. Espero que ele seja inteligível a outros, também, mas o propósito primordial dele é tratar de questões difíceis de teoria e, só em segundo lugar, das aplicações dessa teoria à prática”.
A obra tornou-se referência das políticas econômicas do pós-guerra e redefiniu o papel do Estado na estabilização das economias capitalistas. Para Keynes: “Os principais defeitos da sociedade econômica em que vivemos são a sua incapacidade de proporcionar o pleno emprego e a sua arbitrária e desigual distribuição da riqueza e das rendas” (KEYNES, 1983, p. 253).
Keynes atuou diretamente junto ao governo britânico e às instituições financeiras da City of London, reforçando o papel da capital inglesa como centro da política econômica mundial no século XX. Keynes refutou a Lei de Say, de 1803, e inverteu a famosa e clássica lei, enfatizando que a demanda que assegura a oferta. Segundo o economista clássico Jean-Baptiste Say, “A oferta cria a sua própria demanda”.
A Grande Depressão (The Great Depression) dos anos 30 contribuiu para o surgimento de um novo pensamento econômico, um pensamento revolucionário de Keynes, refutando o pensamento dos economistas clássicos como Adam Smith, David Ricardo, Jean-Baptiste Say e John Stuart Mill, além dos economistas neoclássicos como Alfred Marshall e Arthur Pigou.
Keynes criticou as ideias de Smith, Say, Ricardo, Marshall e Pigou, revelando ao mundo as suas ideias revolucionárias. Keynes (1983, p. 4) disse, “As ideias aqui expressas tão laboriosamente são extremamente simples e devem ser óbvias. A dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar das velhas, que se ramificam, para aqueles que foram criados como a maioria de nós foi, por todos os cantos de nossas mentes”.
Lord Keynes (1983, p. 258) escreveu, “Os regimes autoritários contemporâneos parecem resolver o problema do desemprego à custa da eficiência e da liberdade. É certo que o mundo não tolerará por muito mais tempo o desemprego que, à parte curtos intervalos de excitação, é uma consequência – e na minha opinião uma consequência inevitável – do capitalismo individualista do nosso tempo. Mas pode ser possível curar o mal por meio de uma análise correta do problema, preservando ao mesmo tempo a eficiência e a liberdade”.
Keynes sustentava que o governo deveria intervir na economia, aumentado os gastos públicos para gerar emprego. Porém, discordava dos ditadores Adolf Hitler, Benito Mussolini e Joseph Stalin, os quais, em nome do Estado forte e ditatorial, destruíram a democracia e a liberdade.
Em 1932, quando cerca de seis milhões de desempregados vagavam pelas ruas, a Alemanha foi devastada pela hiperinflação, pelo marco alemão muito desvalorizado, pelo alto custo da reconstrução das cidades, logo após a derrota na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e as indenizações impostas pelo Tratado de Versalhes, e pela fuga de investidores americanos, que empobreceram com a crise de 1929.
Desde o crack da Bolsa de Nova York em 1929, milhões de pessoas nos Estados Unidos estavam sem emprego, milhões com fome nas filas de sopa e milhões sem casa. 659 bancos faliram em 1929, 1.352 em 1930 e 2.294 em 1931. Então, Franklin Delano Roosevelt, 31º presidente dos EUA, adotou um programa de recuperação da economia norte-americana chamado New Deal, inspirando-se nas ideias de John Maynard Keynes e transformando o papel do governo na economia.
- Considerações finais
Concluir que a Economia Moderna nasceu em Londres é reconhecer o papel singular da capital inglesa como berço intelectual das principais correntes do pensamento econômico. Liberalismo econômico, socialismo científico e keynesianismo foram formulados, difundidos e consolidados a partir de obras publicadas ou amadurecidas intelectualmente na cidade mais influente do RU.
Adam Smith, o maior economista do século XVIII, explicou o funcionamento dos mercados; Karl Marx, o maior economista do século XIX, revelou suas contradições; e John Maynard Keynes, o maior economista do século XX, demonstrou seus limites. Três livros fundamentais, três paradigmas teóricos e uma cidade central na história do pensamento econômico mundial: Londres.
À luz desse legado, 2026 será um ano especialmente significativo para o pensamento econômico. A Riqueza das Nações, de Adam Smith, celebra seus 250 anos; O Capital, de Karl Marx, completa 159 anos; e A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de John Maynard Keynes, comemora 90 anos de publicação.
Que possamos celebrar essas obras primas ao longo de 2026, em qualquer cidade do mundo, promovendo encontros e debates sobre suas contribuições. Sobretudo, que o ano seja um convite à leitura, e releitura dessas três grandes obras de Economia, de modo a estimular o surgimento de novos pensamentos econômicos à altura dos desafios contemporâneos.
Referências
KEYNES, John Maynard. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Apresentação de Adroaldo Moura da Silva; tradução de Mário R. da Cruz. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).
MACHADO, Luiz Alberto. Viagem pela Economia. São Paulo: Scriptum Editorial, 2019.
MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Apresentação de Jacob Gorender; coordenação e revisão de Paul Singer; tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações: Investigação sobre sua Natureza e suas Causas. Vol. I. Apresentação de Winston Fritsch; tradução de Luiz João Baraúna São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).
[1] Artigo escrito em parceria com o economista paraibano Paulo Galvão Jr.*
(*)Paulo Galvão Júnior é economista, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, membro do Instituto de Inteligência Econômica em São Paulo e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência em João Pessoa.
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