Dezoito grandes episódios da economia mundial

nos últimos 100 anos (1925-2025)[1]

Considerações iniciais 

A economia mundial, ao longo dos últimos 100 anos, foi marcada por crises sistêmicas, guerras de grande magnitude, transformações estruturais no sistema monetário internacional e profundas reconfigurações geopolíticas.

Desde o retorno do Reino Unido (RU) ao padrão-ouro em 1925, passando pelo colapso financeiro de 1929 até os rearranjos comerciais, tecnológicos e políticos da década de 2020, o sistema econômico global passou por sucessivas rupturas que redefiniram padrões de crescimento econômico, comércio exterior, finanças e distribuição do poder econômico.

Alguns desses grandes episódios tiveram natureza essencialmente econômica e financeira; outros foram predominantemente políticos ou militares, até sanitários, mas produziram impactos diretos sobre os mercados de energia, as cadeias produtivas globais, os fluxos internacionais de capitais e os mecanismos de governança econômica mundial.

A compreensão histórica desses grandes eventos de 1925 até 2025 é fundamental para interpretar os desafios contemporâneos e projetar cenários futuros em um ambiente internacional cada vez mais instável e multipolar. 

Dezoito grandes episódios da economia mundial entre 1925 e 2025

No livro intitulado Por que estudar Economia?, de 2025, os autores Fabio Giambiagi e Arlete Nese apresentam no Capítulo 1, 34191 09016 32869 108137 90719 170004 5 1381000006472934191 09016 32869 108137 90719 170004 5 13810000064729 denominado “Para entender o mundo”, o Quadro 1.1 com título “Grandes episódios dos últimos 100 anos”, com dez grandes eventos, que começa em 1929 e encerra em 2022, ou seja, nos últimos 93 anos. 

Na nossa singela opinião, para completar efetivamente o arco dos últimos cem anos, seria recomendável incluir oito grandes episódios na economia mundial: (i) o retorno britânico ao padrão-ouro (1925), que evidenciou as limitações do regime monetário internacional do entre-guerras; (ii) a crise da dívida externa latino-americana, que começou em 1982 no México; (iii) a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1991, marco da consolidação da economia de mercado como paradigma dominante; (iv) a crise financeira asiática, que começou em 1997 na Tailândia; (v) os ataques terroristas às Torres Gêmeas do World Trade Center (WTC) em 2001; (vi) a Guerra do Iraque em 2003; (vii) a Primeira Guerra Comercial iniciada pelos Estados Unidos da América (EUA) em 2018, que sinalizou o esvaziamento da globalização até o fim do governo de Donald Trump; e (viii) o recrudescimento protecionista e indicativo da transição para uma ordem geoeconômica fragmentada com a Segunda Guerra Comercial continuada pelos EUA em 2025, novamente sob o governo de Donald Trump.

O Quadro 1, a seguir, apresenta os dezoito principais episódios da economia mundial entre 1925 e 2025, organizados de forma cronológica e enquadramento histórico-econômico:

Quadro 1: Dezoito grandes episódios da economia mundial (1925-2025)
Ano Grande Evento na Economia Mundial
1925-1926 Retorno do Reino Unido ao padrão-ouro
1929 Crash da Bolsa de Valores de Nova York e início da Grande Depressão
1939-1945 Segunda Guerra Mundial
1971 Fim da conversibilidade dólar-ouro
1973 Primeiro choque do petróleo
1979 Segundo choque do petróleo
1982 Crise da Dívida Externa na América Latina
1989 Queda do Muro de Berlim
1991 Dissolução da União Soviética
1997 Crise Financeira dos Tigres Asiáticos
2001 Os ataques terroristas às Torres Gêmeas do World Trade Center
2002 Entrada do euro em circulação
2003 Guerra do Iraque
2008 Crise do subprime e quebra do Lehman Brothers
2018-2020 Primeira Guerra Comercial no governo Donald Trump
2020 Pandemia da Covid-19
2022 Guerra na Ucrânia
2025 Segunda Guerra Comercial sob o governo Trump
Fontes: Elaborado pelos próprios autores, com base em Giambiagi & Nase (2025).

Um dos episódios mais decisivos de 1925 para a economia mundial foi a consolidação do padrão-ouro sob liderança britânica, com efeitos estruturais sobre o sistema financeiro internacional do período entre-guerras. Embora o retorno do RU ao padrão-ouro de formalmente tenha ocorrido em 1925, seus efeitos mais profundos se manifestaram em 1926, quando a economia britânica começou a sentir o impacto da política de câmbio fixo e da deflação.

O então ministro das Finanças do RU, Winston Churchill, decidiu restaurar a libra esterlina à paridade pré-Primeira Guerra Mundial (1914-1918) com o ouro. Essa medida valorizou artificialmente a libra; reduziu a competitividade das exportações britânicas; aumentou o desemprego, especialmente na indústria do carvão, e provocou forte tensão social.

A greve geral britânica de 1926 foi a consequência direta do aperto monetário e da crise industrial, liderada pelos sindicatos britânicos. Foi um dos maiores movimentos trabalhistas do século XX. Essa greve revelou a fragilidade do sistema produtivo europeu no pós-guerra, os limites da política deflacionária e a dificuldade de sustentar o padrão-ouro em economias endividadas e desestruturadas.

Se olharmos as grandes inflexões econômicas globais, 1925 não foi um ano de “explosão”, mas de acúmulo silencioso de desequilíbrios estruturais. Contudo, a volta ao padrão-ouro pelo RU simbolizou a tentativa de restaurar a ordem pré-1914, mas acabou acelerando a desordem que desembocaria em 1929, o ano da pior crise do capitalismo mundial.

A Crise de 1929 marcou o início da Grande Depressão, caracterizada pela queda da Bolsa de Valores de Nova York em 24 de outubro. Em 29 de outubro ocorreu outro colapso financeiro, provocando desemprego em massa e retração prolongada do comércio internacional. Esse episódio redefiniu o papel do Estado na economia de mercado, impulsionando políticas de intervenção e planejamento econômico, especialmente a partir das formulações keynesianas.

A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) reorganizou profundamente o sistema produtivo internacional e consolidou a hegemonia econômica dos EUA no pós-guerra, dando origem à arquitetura institucional de Bretton Woods (1944) e às bases da ordem econômica liberal do século XX. Essa arquitetura foi completada em 1947 com a criação do GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio).

Em 1971, o fim da conversibilidade do dólar em ouro encerrou definitivamente o sistema de Bretton Woods, inaugurando a era das moedas fiduciárias, da flutuação cambial e da maior volatilidade financeira internacional.

Poucos anos depois, os choques do petróleo de 1973 e 1979 evidenciaram a dependência energética das economias industriais, gerando estagflação e acelerando reformas estruturais, especialmente nos países desenvolvidos. É preciso destacar que a Revolução Iraniana provocou o Segundo Choque do Petróleo em 1979, porque gerou uma forte interrupção na produção e exportação do petróleo do Irã, que na época era um dos maiores produtores e exportadores mundiais de petróleo.

A Crise da Dívida Latino-Americana (1982-1989) foi uma crise de endividamento soberano. E o principal gatilho foi alta dos juros nos EUA, com sérios impactos, como a moratória mexicana (1982), e a “década perdida” na América Latina.

A queda do Muro de Berlim (1989) e a dissolução da URSS em 1991 simbolizaram o colapso do socialismo real e consolidaram a expansão da economia de mercado e da globalização nos anos 1990.

A Crise dos Tigres Asiáticos foi um episódio de grande relevância na economia mundial porque evidenciou as vulnerabilidades estruturais de economias emergentes altamente integradas ao sistema financeiro internacional. Deflagrada em 1997, a crise teve início na Tailândia, com a desvalorização do baht, e rapidamente se propagou para outros países do Sudeste Asiático, como Coreia do Sul, Indonésia e Malásia.

Em 11 de setembro de 2001, ocorreram os devastadores ataques terroristas contra as Torres 1 e 2 do WTC, em Nova York. Naquela manhã, aeronaves comerciais sequestradas por integrantes da organização extremista Al-Qaeda foram deliberadamente lançadas contra as Torres Gêmeas do WTC, provocando incêndios de grandes proporções e os subsequentes colapsos estruturais dos dois edifícios.

Os atentados terroristas resultaram na morte de milhares de pessoas e causaram impactos profundos na segurança internacional, nas políticas de combate ao terrorismo e na geopolítica mundial. O episódio tornou-se um marco histórico do século XXI, desencadeando mudanças significativas nas estratégias de defesa e nas relações internacionais, especialmente envolvendo os EUA.

A introdução do euro em 2002 representou o aprofundamento do processo de integração econômica e monetária europeia. A crise financeira global de 2008, desencadeada pelo colapso do mercado imobiliário norte-americano e pela falência do Lehman Brothers, expôs os riscos da financeirização excessiva, da desregulamentação dos mercados e da interconexão sistêmica do sistema bancário internacional, resultando em reformas regulatórias e maior atuação dos bancos centrais.

A Guerra do Iraque começou em 20 de março de 2003, quando uma coalizão liderada pelos EUA e pelo RU invadiu o Iraque. O governo do presidente George W. Bush justificou a invasão argumentando que o regime de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa e representava ameaça futura, alegações que depois não foram comprovadas, mas o preço internacional do barril de petróleo subiu muito no tipo Brent.

A pandemia da Covid-19 (2020) constituiu um choque simultâneo de oferta e demanda sem precedentes, interrompendo cadeias globais de valor e levando governos a adotar políticas fiscais e monetárias extraordinárias. Já a Guerra na Ucrânia (2022) reacendeu tensões geopolíticas, afetando significativamente os mercados globais de energia, fertilizantes e alimentos, em razão do fato de serem a Rússia e a Ucrânia grandes produtoras mundiais de petróleo, de gás natural, de trigo, de cevada e de fertilizantes.

A Primeira Guerra Comercial iniciada no primeiro mandato de Donald Trump (2018-2020) representou uma inflexão no comércio internacional, com elevação de tarifas e questionamento das regras multilaterais, sobretudo nas relações com a China. No segundo mandato (iniciado em 2025), novas tarifas protecionistas, que ampliaram as tensões comerciais, afetando cadeias globais de suprimentos e acelerando processos de regionalização produtiva e reshoring industrial.

A Segunda Guerra Comercial dos EUA contra a China, o Canadá e o México, entre outros países, como o Brasil e a Índia, é o verdadeiro gatilho dos processos de transição política na Venezuela, no Irã e em Cuba em 2026, com o início do provável encerramento de regimes autoritários, elas configuram potenciais pontos de inflexão econômica regional, abrindo perspectivas de reintegração comercial, atração de investimentos estrangeiros diretos (IEDs) e reformas estruturais, caso esses processos se consolidem institucionalmente.

No apagar das luzes de fevereiro de 2026, começou a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, com fortes explosões no sul do país e em Teerã, capital iraniana. O Irã contra-atacou imediatamente com o lançamento de mísseis e drones contra o território israelense e contra as bases militares americanas em vários países do Oriente Médio, como Bahrein, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos (EAU), Iraque e Jordânia. Com certeza, essa guerra será um dos grandes acontecimentos de 2026 e poderá mudar os rumos da economia mundial, especialmente em relação aos preços internacionais do barril de petróleo tipo Brent.

Considerações finais

Finalizando, a História econômica dos últimos 100 anos demonstra que a economia mundial evolui por meio de ciclos de estabilidade e ruptura. Crises financeiras, guerras, transformações monetárias e disputas comerciais não apenas provocam recessões temporárias, mas também redefinem instituições, padrões produtivos e a distribuição global de poder.

Se o período pós-1991 foi marcado pela globalização acelerada e pela liberalização econômica, a década de 2020 sinaliza uma transição para uma ordem econômica mais fragmentada, com maior peso da geopolítica, das cadeias regionais de valor e da segurança energética.

Por fim, compreender essas rupturas históricas não constitui apenas um exercício acadêmico, mas uma condição essencial para a formulação de estratégias nacionais de desenvolvimento em um mundo cada vez mais instável, competitivo e multipolar.

 

 Referência

GIAMBIAGI, Fábio; NESE, Arlete. Por que estudar Economia? Conversas sobre a profissão. Rio de Janeiro: Alta Books, 2025.

 

 

(*) Paulo Galvão Júnior é economista, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, membro do Instituto de Inteligência Econômica (IIE) e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência em João Pessoa.

 

[1] Artigo escrito em parceria com o Prof. Paulo Galvão Júnior*.