No princípio era economia política

Com exceção da obra magna de Adam Smith, cujo título é Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações, publicada em 1776, quase todas as obras dos autores clássicos e marginalistas dos séculos XVIII e XIX continham a expressão economia política em seu título ou subtítulo. São os casos de Tratado de economia política (1803), de Jean-Baptiste Say, Princípios de economia política e tributação (1817), de David Ricardo, Princípios de economia política (1820), de Thomas Malthus, Princípios de economia política (1848), de John Stuart Mill, Para a crítica da economia política (1859) e O capital: crítica da economia política (1867), de Karl Marx, A teoria da economia política (1871), de William Stanley Jevons, Princípios de economia política (1871), de Carl Menger e Compêndio dos elementos de economia política pura (1874), de Leon Walras.

Em 1890, Alfred Marshall publicou sua obra mais importante, Princípios de economia, consolidando a abordagem neoclássica e se tornando o texto-base de Economia por décadas, unindo conceitos de oferta, demanda, utilidade marginal e custos de produção.

Portanto, os textos de Economia anteriores a Marshall referem-se à matéria tratando-a de “economia política” (political economy). Marshall, embora se opusesse ao conceito de homo economicus, por considerá-lo excessivamente simplificador, e procure considerar o indivíduo enquanto agente econômico sempre inserido num determinado contexto sociocultural, abandonou essa denominação e passou a se utilizar da expressão “economia” (economics).

Nesse sentido, como afirma Ricardo Feijó em História do pensamento econômico: de Lao tse a Robert Lucas (2001, p. 291),

Marshall representou um marco institucional na história da moderna Economia. Introduziu o nome Economics em substituição ao anterior Political economy, para designar o novo estilo de se fazer ciência econômica; fundou o primeiro curso especializado de Economia e seu livro de 1890, Princípios de economia, foi o principal manual dessa disciplina por mais de 30 anos.

Mais adiante, na mesma obra, continua Feijó (2001, p. 315):

Antes de Marshall, em Cambridge a Economia era ensinada apenas como parte das ciências históricas e morais, e não era objeto de trabalhos mais avançados. Marshall fez da Economia uma profissão. Durante muitos anos ele lutou, nem sempre com sucesso, para ampliar o âmbito da Economia, e só em 1903 inaugurou-se um novo curso especializado em Economia, o primeiro curso exclusivamente dedicado à formação do profissional nesse campo de que se tem notícia (Na verdade, a nova escola de Economia de Cambridge intitula-se “Economia e Política”, conservando esse nome até hoje. Como indica o nome da escola, trata-se de especialização também em Ciências Políticas). Com ele, tal ciência [a Economia] adquire o status de saber autônomo cientificamente qualificado, uma área técnica repleta de conceitos não acessíveis ao não iniciado.

Se na abordagem da economia política (political economy) está implícita a ideia da influência da política na economia, a nova abordagem da economia (economics) supõe a separação entre a economia e a política.

Vivíamos uma fase de transição, com a introdução cada vez maior de uma condição denominada ceteris paribus, expressão que em latim significa “todo o resto constante”. É o termo utilizado na ciência econômica para explicar modelos ou teorias que consideram como inalterados outros fatores que possam influenciá-la. A utilização dessa ferramenta contribui para transformar a economia de uma ciência social em uma ciência metodologicamente dura.

A aplicação dessa ferramenta é muito utilizada pelos economistas modernos, que foram constituindo a corrente dominante (mainstream) da ciência econômica.

Um número considerável de críticos considerava que a utilização dessa ferramenta dá aos seus aplicadores muitas desculpas para contornar problemas reais da natureza humana.

Em consequência disso, a partir de um determinado momento passou a existir um  distanciamento crítico entre adeptos da economia política (political economy) e os da economia (economics). Esse distanciamento permanece até os dias de hoje, dando margem a acalorados debates e muitas trocas de farpas.

Atualmente, isso é claramente perceptível no Brasil nos cursos de Economia. Em alguns predomina a abordagem da economia (economics), como ocorre no Insper, PUC-RJ e FGV-RJ. Noutros, como na UFRJ, Unicamp e PUC-SP predomina a abordagem da economia política (political economy).

Para se ter uma noção da extensão dessa divergência, basta observar as reuniões anuais da ANPEC – Associação Nacional dos Centros de Pós-graduação em Economia, nas quais  há sessões separadas da SEP – Sociedade Brasileira de Economia Política e da SBE – Sociedade Brasileira de Econometria. Os adeptos de cada uma dessas associações costumam dizer que o que se faz na outra não é, propriamente, Economia!

Deslocando a análise para o campo da política econômica, que corresponde à aplicação das concepções teóricas na formulação das políticas públicas levadas a cabo pelos diferentes governos, constata-se no Brasil uma alternância entre políticas econômicas inspiradas na economia (economics) e na economia política (political economy).

Grosso modo, é possível identificar políticas econômicas com inspiração na economia (economics), em boa parte do governo FHC e nos governos de Michel Temer e de Jair Bolsonaro, neste caso graças sobretudo à ação de Paulo Guedes. Por outro lado, é possível identificar políticas econômicas com inspiração na economia política (political economy) nos governos de Lula e de Dilma Rousseff.

Em 2026, ano de eleições presidenciais, tendo em conta o clima de polarização vigente, não é difícil imaginar um amplo predomínio da economia política, o que significa que deverá haver uma forte influência da política na execução da política econômica, com as consequências já conhecidas: excesso de gastos, déficits crônicos e política fiscal frouxa, ficando com a rígida política monetária a responsabilidade exclusiva pela manutenção da inflação em níveis  aceitáveis, pelo menos para os padrões brasileiros. 

 

Referências e indicações bibliográficas

FEIJÓ, Ricardo. História do pensamento econômico: de Lao tse a Robert Lucas. São Paulo: Atlas, 2001.

JEVONS, William Stanley. A teoria da economia política. Tradução de Cláudia Laversveiler de Morais.São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).

MACHADO, Luiz Alberto. Viagem pela economia. São Paulo: Scriptum, 2019.

MALTHUS, Thomas Robert. Princípios de economia política: e considerações sobre sua aplicação prática. Apresentação de Ernane Galvêas. Traduções de Regis de Castro Abreu, Dinah de Abreu Azevedo e Antonio Alves Cury. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).

MARSHALL, Alfred.  Princípios de economia: tratado introdutório. Tradução revista de Rômulo de Almeida e Ottolmy Strauch; introdução de Ottolmy Strauch. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Os Economistas).

MARX, Karl. Para a crítica da economia política; Salário, preço e lucro; O rendimento e suas fontes: a economia vulgar. Introdução de Jacob Gorender; traduções de Edgard Malagodi, Leandro Konder, José Arthur Giannotti e Walter Rehfeld. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Os Economistas).

_______________ O capital: crítica da economia política. Apresentação de Jacob Gorender; coordenação e revisão de Paul Singer; tradução de Regis Barbosa e Flávio R.Kothe. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).

MENGER, Carl. Princípios de economia política. Introdução de F. A. Hayek; tradução de Luiz João Baraúna. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).

MILL, John Stuart. Princípios de economia política: com algumas de suas aplicações à filosofia social (2 volumes). Introdução de W. J. Ashley; apresentação de Raul Ekerman; tradução de Luiz João Baraúna. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).

RICARDO, David. Princípios de economia política e tributação, com a introdução de Piero Sraffa. Apresentação de Paul Singer. Tradução de Paulo Henrique Ribeiro Sandroni. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Os Economistas).

SAY, Jean-Baptiste. Tratado de economia política. Prefácio de Georges Tapinos; tradução de Balthazar Barbosa Filho; tradução do prefácio de Rita Valente Correia Guedes. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).

SMITH. Adam. A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas (2 volumes). Apresentação de Winston Fritsch; tradução de Luiz João Baraúna. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).

WALRAS, Leon. Compêndio dos elementos de economia política pura. Apresentação de Dionísio Dias Carneiro Netto; tradução de João Guilherme Vargas Netto. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).