Dossiê Venezuela

 Trinta horas eletrizantes

O agravamento da tensão entre o presidente Trump e o governo da Venezuela torna ainda mais oportuna a leitura do livro Dossiê Venezuela, cujo subtítulo é: “na trilha da caixa-preta do BNDES, dois jornalistas presos pela ditadura de Nicolás Maduro revelam a história por trás das câmeras”.

Escrito em 2021, alguns anos depois portanto do desenrolar dos acontecimentos, o livro é de autoria de Leandro Stoliar, um dos jornalistas da Record TV − junto com seu amigo, o cinegrafista Gilson Fredy − presos em 2017 nos arredores da ponte Nigale, na Venezuela, quando investigavam o envolvimento da referida ponte com a indústria de propinas da construtora Odebrecht.

Duas afirmações do jornalista e apresentador da Record TV Celso Freitas merecem reprodução. A primeira, da quarta capa:  “Dossiê Venezuela é um prato cheio de emoção do primeiro ao último capítulo e uma aula de bom jornalismo”. A segunda da página 10: “Toda boa reportagem precisa ter um ingrediente imprescindível: emoção − seja ela apresentada no rádio, na TV ou mesmo em um livro. Se essa é sua expectativa para Dossiê Venezuela, ele é um prato cheio, do primeiro ao último capítulo. Mais do que o depoimento do instituto de um repórter, o livro é uma aula de bom jornalismo, que contextualiza o flagelo da população vítima da revolução bolivariana”.

Vou além, incluindo o livro de Leandro Stoliar entre os mais destacados na categoria de jornalismo investigativo, dos quais um recente exemplo espetacular, que também envolve a construtora Odebrecht, é A organização, da jornalista Malu Gaspar.

Prefaciado por Rosana Teixeira, coordenadora de séries especiais do Jornal da Record e responsável pela cobertura objeto do livro, Dossiê Venezuela é composto de 12 capítulos − 1. O susto; 2. A tumba; 3. Os jornalistas brasileiros de gastronomia; 4. A crise na Venezuela; 5. Pelas ruas de Caracas; 6. Por trás das lagostas; 7. A entrevista; 8. A ponte invisível; 9. Memórias do cárcere; 10. O preço da liberdade; 11. A falsa liberdade; 12. A vida por um fio − além do epílogo, no qual são mencionados os pronunciamentos de diversas entidades que repercutiram o caso na época, tais como a Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abratel), Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a reportagem sobre a prisão exibida no Jornal da Record em 13 de fevereiro de 2017, e a repercussão internacional em jornais da América do Sul, Portugal, Estados Unidos, Japão e Rússia.

Diversas razões explicam meu encantamento por Dossiê Venezuela. Fanático por leitura, procuro contemplar vários estilos ao escolher os títulos, o que é uma recomendação a favor do desenvolvimento da criatividade, uma das minhas especialidades, Seja qual for o estilo do livro, presto muita atenção à qualidade da edição, e nesse aspecto Dossiê Venezuela reúne a competência de Leandro Stoliar como redator, excelentes trabalhos de direção de arte, de diagramação e preparação do texto, bem como atenta revisão. Tudo isso resulta num texto limpo, correto, fluido e agradável de ler.

A segunda razão é que a Venezuela foi o primeiro país estrangeiro que conheci. Em 1968, a caminho de Porto Rico para jogar o campeonato mundial de biddy-basket pela seleção brasileira, fizemos escala em Caracas. Jamais me esquecerei do impacto provocado pela excelente qualidade da rodovia Caracas-La Guaira que liga o aeroporto de Maiquetía à capital venezuelana. Com cerca de 17 quilômetros, constituía-se em motivo de orgulho, com suas várias pistas de ótimo leito carroçável e sucessivos túneis, sendo considerada na época uma das referências da engenharia latino-americana juntamente com o Canal do Panamá. A deterioração da referida rodovia é um dos símbolos da decadência que caracterizou o país nas últimas décadas.

Outra razão encontra-se no desenrolar da leitura, principalmente nos capítulos mais relevantes como o da busca pelas imagens que seriam importantes para ilustrar as denúncias, o da entrevista com Juan Guaidó, naquele momento um dos homens mais procurados pelo governo Maduro, e os capítulos finais, carregados de tensão, envolvendo a conturbada saída da Venezuela.

Para mim, marcou muito o capítulo “Memória do cárcere”, em que o autor expõe uma série de dúvidas ao constatar que se encontrava preso, num país estrangeiro, sem contar a quem recorrer.  “Nesse momento, muita coisa passa pela cabeça: E minha família? Nunca mais vou vê-la? Será que não vamos mais sair? Por que aceitei fazer essa reportagem? Onde foi que eu errei? O que vai acontecer agora? Enquanto eu pensava, a cela ficava cada vez mais escura. Parecia que o dia tinha virado noite, mas nem isso tínhamos certeza.”

Esse trecho me remeteu a uma viagem realizada em 2010 com alunos e professores da FAAP, numa missão estudantil que percorreu parte de um roteiro chamado Caminho de Abraão, um projeto idealizado por William Ury, professor da Harvard University. Inspirado no Caminho de Compostela, Ury imaginou uma caminhada semelhante tendo como roteiro o trajeto percorrido séculos atrás pelo profeta Abraão, admirado pelas três grandes religiões monoteístas: cristãos, judeus e muçulmanos.

Realizada durante dez dias em fevereiro de 2010, a missão começou pela Jordânia, prosseguiu pela Palestina e se encerrou em Israel. O grupo foi coordenado pelo jornalista William Waack, que na época acumulava suas funções na Rede Globo com a de professor do curso de Relações Internacionais da FAAP. Durante a jornada, numa rara ocasião em que paramos para jantar num pequeno grupo, William Waack narrou sua experiência de sequestrado no Iraque, em 1991, quando cobria a Guerra do Golfo. Tomado de grande emoção, Waack contou os momentos de incerteza vividos durante o período − bem superior ao experimentado por Leandro Stoliar − quando refletia sobre seu futuro, repetindo, de certa forma, as perguntas feitas por Stoliar em Dossiê Venezuela. Numa viagem repleta de imagens e momentos marcantes, esse relato de William Waack foi, sem dúvida, um momento inesquecível.

Por esses e outros motivos impossíveis de descrever num artigo dessa natureza, recomendo vigorosamente a leitura de Dossiê Venezuela, incluindo a decisão da realização da reportagem e as trinta eletrizantes horas que começam com o voo de São Paulo a Caracas na quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017, passam pelos deslocamentos internos com  destaque à ida a Maracaibo onde se encontram as obras inacabadas contratadas à Odebrecht e à entrevista com Juan Guaidó, e encerram-se com o voo de volta a São Paulo no domingo, 12 de fevereiro de 2017.

 

Referências e indicações bibliográficas

CHADE, Jamil. O caminho de Abraão: Fé, amor e guerra em travessias separadas pelo tempo. São Paulo: Editora Planeta, 2018.

GASPAR, Malu. A organização: a Odebrecht e o esquema de corrupção que chocou o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

STOLIAR, Leandro. Dossiê Venezuela: na trilha da caixa-preta do BNDES, dois jornalistas presos pela ditadura de Nicolás Maduro revelam a história por trás das câmeras. São Paulo: Maquinaria Sankto Editora e Distribuidora Ltda., 2021.

URY, William e SZEPESI, Stefan (organizadores). O caminho de Abraão: História – Caminhada – Hospitalidade. São Paulo: Marco Zero, 2017.