A economia criativa como caminho para movimentar a economia paraibana[1]

 Considerações iniciais

A economia criativa tem se consolidado como um dos setores mais dinâmicos e promissores do mundo contemporâneo. Baseada no talento, na inovação, na criatividade e na capacidade de transformar ideias em produtos e serviços de valor, ela representa uma alternativa estratégica para municípios, estados e países em busca de desenvolvimento sustentável.

Na Paraíba, um estado nordestino e rico em diversidade cultural, artística e natural, a economia criativa surge como uma ferramenta de geração de emprego, renda e identidade, contribuindo para fortalecer a imagem do estado no cenário regional, nacional e internacional.

O estado da Paraíba e o estado do Rio de Janeiro são os dois únicos estados do Brasil que possuem duas entre as 15 cidades brasileiras pertencentes à Rede de Cidades Criativas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que conta desde 31 de outubro de 2025, com 408 cidades espalhadas pelo mundo. As cidades de João Pessoa e Campina Grande na Paraíba e Rio de Janeiro e Paraty no estado do Rio de Janeiro. 

  1. Segmentos da economia criativa na Paraíba

A economia criativa paraibana é multifacetada, refletindo a pluralidade de manifestações culturais, históricas e artísticas do estado. Alguns segmentos se destacam: 

Artesanato: Reconhecido nacionalmente e internacionalmente, o artesanato paraibano é referência, com destaque para a renda renascença do Cariri e do Sertão, o Bordado Labirinto de Alagoa Nova, o artesanato de couro de Cabaceiras e a cerâmica do Vale do Paraíba. Esse segmento combina tradição com inovação, atraindo turistas nacionais e internacionais e gerando emprego e renda para comunidades locais.

João Pessoa é uma cidade criativa da UNESCO desde 2017 na categoria Artesanato e Artes Folclóricas. Os produtos mais comercializados pela Associação de Artesãs Sereias da Penha são bijuterias com escamas de peixe e a comercialização dos produtos artesanais das Sereias da Penha é realizada em feiras, site ou redes sociais. Embora tenha sido um pilar fundamental, é um exemplo de como a cultura popular pode ser economicamente impulsionada, logo, o título abrange todo o artesanato e a arte popular da capital paraibana. 

Música: A Paraíba é um berço musical, com nomes consagrados como Sivuca, Jackson do Pandeiro, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Roberta Miranda, Herbert Viana, Marinês, Genival Lacerda, Alcymar Monteiro, Flávio José e Chico César. Além do legado histórico, festivais de música, como os eventos internacionais, o maior São João do mundo em Campina Grande e o Festival Internacional de Música Clássica de João Pessoa, dinamizam o setor, atraindo público e movimentando a economia paraibana.

Campina Grande é uma cidade criativa devido à forte integração entre cultura e tecnologia, o que lhe rendeu o título de cidade criativa da UNESCO em Artes Midiáticas desde 2021. Essa combinação impulsiona a economia criativa local através de eventos inovadores, do desenvolvimento de jogos digitais e da aplicação de tecnologia em projetos culturais e artísticos.

Cinema: O cinema paraibano vem ganhando destaque, especialmente com produções independentes que circulam em festivais regionais, nacionais e internacionais. A cidade de Cabaceiras é mundialmente conhecida como a Roliúde Nordestina, idealizada pelo saudoso Willis Leal, grande escritor, jornalista e defensor do turismo paraibano. Wills Leal também fundou a Academia Paraibana de Cinema (APC) no ano de 2008.

O filme O Auto da Compadecida, de 2000, do diretor pernambucano Guel Arraes, baseado na obra-prima de Ariano Suassuna, foi filmado na pequena e ensolarada cidade de Cabaceiras, no Cariri Paraibano.

Audiovisual: A Paraíba abriga polos de produção audiovisual em João Pessoa e Campina Grande, incentivados por editais de fomento e pela presença da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

Turismo: O São João de Campina Grande é considerado o maior do mundo, reunindo milhares de turistas brasileiros e estrangeiros a cada edição desde 1983. Além disso, o turismo religioso, histórico e cultural se integra ao setor criativo, valorizando expressões culturais locais, como a gastronomia típica e a música regional, como o forró e o xaxado.

Literatura: A Paraíba é terra de escritores e poetas, como Augusto dos Anjos, Ariano Suassuna, José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Assis Chateaubriand, cujo legado literário alimenta movimentos culturais, saraus e feiras literárias, fortalecendo a cadeia produtiva do livro e da cultura escrita.

A pequena e secular cidade de Pilar é a terra natal do grande romancista José Lins do Rego, de quem destacamos as obras O menino de engenho (1932), Riacho doce (1939) e Fogo morto (1943).

Já a cidade sertaneja de Pombal é a terra natal do grande economista Celso Monteiro Furtado, de quem destacamos as obras Formação econômica do Brasil (1959), Desenvolvimento e subdesenvolvimento (1961), O mito do desenvolvimento econômico (1974) e Criatividade e dependência na civilização industrial (1978).

Neste último livro, Furtado foi pioneiro em apontar a criatividade como fator chave para o desenvolvimento, a ponto de ter um trecho escolhido por Cláudia Leitão para ser utilizado como epígrafe do Plano da Secretaria da Economia Criativa: políticas, diretrizes e ações, 2011-2014, publicado em 2011 pelo Ministério da Cultura (MinC). Por sua relevância reproduzimos a seguir o referido trecho:

[…] as sociedades necessitam de meios de defesa e adaptação, cuja eficácia reflete a aptidão de seus membros para formular hipóteses, solucionar problemas, tomar decisões em face da incerteza. Ora, a emergência de um excedente adicional… Abre aos membros de uma sociedade um horizonte de opções; já não se trata de reproduzir o que existe, e sim de ampliar o campo do que é imediatamente possível […] O novo excedente, constitui, portanto, um desafio à inventividade… Em sua dupla dimensão de força geradora de novo excedente e impulso criador de novos valores culturais, esse processo libertador de energias humanas constitui a fonte última do que entendemos por desenvolvimento.

 Moda e Design: A criatividade paraibana também se reflete na moda, com designers e estilistas que exploram elementos da cultura local em suas coleções, além da integração entre design e artesanato, promovendo inovação e sustentabilidade, como uso do algodão colorido em diversas roupas femininas e masculinas. 

Gastronomia: As culinárias paraibana e nordestina, marcada por pratos típicos como a carne de sol, a pamonha, o feijão verde, a fava, o arroz vermelho, o cuscuz, a macaxeira, o bolo de rolo, a tapioca e o rubacão, têm ganhado espaço na economia criativa por meio da valorização da gastronomia regional, do turismo gastronômico e da reinvenção de receitas tradicionais em versões contemporâneas.

As cachaças de Areia, na Paraíba, são muito conhecidas e apreciadas, assim como as da linda e histórica Paraty, no Rio de Janeiro. Ambas as cidades são reconhecidas pela produção de destilados de alta qualidade. Areia se destaca por ser parte da microrregião do Brejo Paraibano, tradicionalmente produtora, com diversas marcas de renome, como a Cachaça Triunfo, destilada em alambique e envelhecida em barris de carvalho, contribuindo para a fama nacional e mundial da cachaça paraibana. 

Jogos Digitais e Tecnologia Criativa: Com a expansão da tecnologia, João Pessoa e Campina Grande começam a se destacar em startups ligadas a games, aplicativos e experiências digitais. Esse segmento econômico representa a fusão entre inovação tecnológica e criatividade, ampliando a presença da Paraíba em um mercado globalizado. 

Arquitetura e Patrimônio Histórico: A preservação e a revitalização de espaços históricos em João Pessoa (a terceira capital mais antiga do Brasil, com 440 anos), Areia (casarões coloridos, igrejas e praças) e outras cidades paraibanas transformam o patrimônio histórico em ativo econômico, atraindo turistas nacionais e internacionais e gerando oportunidades em arquitetura, urbanismo e design de espaços culturais. 

Artes Visuais: Pintura (com destaque para o grande pintor Pedro Américo), escultura e fotografia (em que se destaca o fotógrafo João Córdula) formam outro campo criativo importante. Artistas paraibanos têm alcançado reconhecimento nacional e internacional, e feiras de arte, exposições e galerias contribuem para dar visibilidade e movimentar o mercado cultural.

Mídia e Comunicação: a televisão, o rádio, o radiocast e o podcast fazem parte da economia criativa. Eles se encaixam no setor de mídia e comunicação, que é uma das áreas-chave das indústrias criativas, gerando valor econômico a partir do capital intelectual e da criatividade humana.

  1. O que é economia criativa?

No livro Economia + Criatividade = Economia Criativa (2021), os autores afirmam que “a economia criativa desempenha um papel estratégico no desenvolvimento econômico e social, combinando conhecimento, cultura, inovação e tecnologia para gerar valor. Ela se baseia no capital intelectual, nas habilidades humanas e na capacidade de transformar ideias em produtos e soluções”.

Posteriormente, os autores destacam que, “Além disso, a economia criativa contribui para cidades mais dinâmicas e sustentáveis, ampliando o acesso a oportunidades de trabalho qualificado”.

Para eles, “é importante conhecer este campo cuja lógica vai além da indústria tradicional, incorporando inovação, intangibilidade, redes colaborativas, propriedade intelectual e novas formas de organização produtiva”.

Em síntese, “a economia criativa tem sua origem na habilidade, criatividade e talentos individuais, que, empregados de forma estratégica, têm potencial para a criação de renda e empregos por meio da geração e exploração da propriedade intelectual”, segundo Victor Mirshawka, um dos primeiros brasileiros a enveredar pelos campos da criatividade e da economia criativa.

Atualmente a economia criativa é muito importante em vários países com uma enorme abrangência que vai da arquitetura até turismo, da moda até gastronomia, do cinema até literatura, dos jogos de computador até esportes.

O professor da Universidade de Toronto, escritor e jornalista norte-americano Richard Florida, reconhecido internacionalmente como um dos maiores especialistas em economia criativa e autor de A ascensão da classe criativa (2011), aponta a existência de 3Ts como indicadores do DNA de uma cidade criativa: Tecnologia, Talento e Tolerância.

Cada uma dessas condições é necessária, mas sozinha é insuficiente: para atrair indivíduos criativos, gerar inovação e estimular o crescimento econômico.

Tecnologia, Talento e Tolerância são essenciais, são três pilares cruciais para que uma cidade atraia a “classe criativa”, como profissionais de alta capacidade em setores como ciência, arte, gastronomia, hotelaria e design e, consequentemente, prospere econômica e culturalmente. 

  1. Considerações finais

Concluindo, a economia criativa é, portanto, um caminho estratégico para o desenvolvimento sustentável da Paraíba. Ela não apenas movimenta recursos financeiros, mas também fortalece a identidade cultural, promove a inclusão social e estimula a inovação e a tecnologia.

Investir em políticas públicas de apoio e incentivo à economia criativa nos 223 municípios paraibanos, em capacitação profissional e em infraestrutura cultural, como bibliotecas, teatros, museus, cinemas, pinacotecas, entre outros, é fundamental para consolidar esse relevante setor em território paraibano.

A Paraíba, com sua rica diversidade cultural, sustentabilidade, inovação e criatividade pulsante, tem todas as condições para se tornar um polo de referência no Brasil, e futuramente, no mundo, transformando sua enorme criatividade em motor de progresso econômico e social em plena Quarta Revolução Industrial.

 

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Cultura. Plano da Secretaria da Economia Criativa: políticas, diretrizes e ações, 2011 – 2014. Brasília: Ministério da Cultura, 2011.

DAVILA, Anapaula Iacovino; MACHADO, Luiz Alberto; PAULA, Mauricio Andrade de; SANTOS, Sonia Helena. Economia + Criatividade = Economia Criativa. 2ª ed. revista, ampliada e atualizada. São Paulo: Scriptum, 2024.

FLORIDA, Richard. A ascensão da classe criativa. Tradução de Ana Luiza Lopes. Porto Alegre: L&PM, 2011.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Nacional, 1991.

________ Desenvolvimento e subdesenvolvimento. São Paulo: Contraponto, 2009.

________ O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

________ Criatividade e dependência na civilização industrial. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

REGO, José Lins do. O menino do engenho. Rio de Janeiro: Global Editora, 2020.

________ Riacho doce. Rio de Janeiro: Global Editora, 2021.

________ Fogo morto. Rio de Janeiro: Global Editora, 2021.

 Referência cinematográfica

O Auto da Compadecida

Baseado na peça teatral Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, de 1955

Direção: Guel Arraes

Roteiro: Adriana Falcão e João Falcão

Elenco: Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Marco Nanini, Rogério Cardoso, Diogo Vilela, Denise Fraga, Luís Melo, Lima Duarte, Fernanda Montenegro

Gênero: Comédia romântica

Data de lançamento: 10 de setembro de 2000

Duração: 1h44

 

 

(*) Paulo Galvão Júnior é economista pela UFPB e especialista em Gestão de RH pela UNINTER. Autor de 18 e-Books de Economia. Autor e co-autor de mais de 380 artigos de Economia. Foi professor de Economia e de Economia Brasileira no UNIESP. Eleito Economista do Ano 2019 e Professor de Economia do Ano 2023 na Paraíba pelo Corecon-PB. É conselheiro efetivo do Corecon-PB, diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência na capital paraibana.

 

[1] Artigo escrito em parceria com Paulo Galvão Júnior*