Ilícito

Participando recentemente de uma reunião no Espaço Democrático, Alberto Pfeifer,  especialista em Relações Internacionais e coordenador-geral do grupo de análise em estratégia internacional da USP, alertou para a grave ameaça externa enfrentada pelo Brasil, representada pelo crime organizado internacional, que extrapola fronteiras e não para de crescer, aproveitando-se da inoperância das forças de segurança, a fim de conquistar espaço e obter poder cada vez maior, tanto econômico como político.

Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime – UNODOC, o crime organizado transnacional movimenta cerca de US$ 870 bilhões por ano, equivalente a aproximadamente 1,5% do PIB global. Há fontes especializadas que estimam montantes ainda mais altos: entre US$ 3,6 e 4,8 trilhões/ano, o que representaria de 3% a 7% do PIB global.

A exposição de Pfeifer me remeteu ao livro Ilícito, de autoria de Moisés Naím, editor da revista Foreign Policy, publicado em 2006, mas ainda incrivelmente atual. No referido livro, que tem por subtítulo o ataque da pirataria, da lavagem de dinheiro e do tráfico à economia global, chamou minha atenção a abordagem interdisciplinar de Naím sobre as questões da violência e do terrorismo, diferente do exame feito por especialistas de diversas áreas do conhecimento, tais como Direito, Sociologia, Psicologia, Antropologia, Economia, Ciência Política e Relações Internacionais.

Usando a expressão “globalização do mal”, que se reflete  numa faceta pouco percebida da nova economia global, mais interligada, mais rápida e menos sujeita ao controle dos Estados, Naím adverte para a relevância de alguns fatores potencializados pelo processo de globalização: o terrorismo, a pirataria, a lavagem de dinheiro, o comércio ilegal de armas, drogas, órgãos humanos, imigrantes, bens falsificados e prostitutas e, mais recentemente, os chamados cibercrimes (atividades criminosas que envolvem o uso de computadores ou redes de computadores para fins ilegais; podem variar desde ataques a sistemas e redes para roubo de dados, até o uso da internet para atividades como fraude, extorsão e disseminação de conteúdos ilegais).

Em sua análise, Naím enfatiza uma importante desigualdade: enquanto as pessoas e os grupos envolvidos com essas formas de crime atuam de forma sistêmica e organizada, com elevado grau de conexão, os países e as instituições responsáveis pelo seu enfrentamento costumam agir de forma isolada e pouco eficiente, não raras vezes com baixíssimo grau de conexão em suas ações.

Embora eu reconheça que ocorreram avanços desde que o livro foi publicado, no sentido de uma maior integração das forças de segurança e combate ao crime, sobretudo no que se refere à troca de informações, minha  sensação é de que o gap continua muito grande, levando-me à triste conclusão de que “o crime compensa”.

 

 

Referência bibliográfica 

NAÍM, Moisés. Ilícito: o ataque da pirataria, da lavagem de dinheiro e do tráfico à economia global. Tradução de Sérgio Lopes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.