Crise, oportunidade, vontade e liderança
Em recente palestra, o ex-ministro Maílson da Nóbrega alertou para o grave quadro em que a economia brasileira se encontra, atribuindo a situação principalmente à questão fiscal. Segundo o ministro, é provável que o quadro se agrave ainda mais até as eleições, uma vez que o governo do presidente Lula não tem hesitado em lançar mão de “bondades” com objetivos eleitoreiros, cujo impacto nas contas públicas é bastante preocupante.
Embora não tenha mencionado explicitamente uma analogia associada ao alfabeto chinês, Maílson estabeleceu um link entre crise e oportunidade ao observar o histórico de crescimento na economia brasileira, condicionando a existência desse link à presença de vontade e liderança por parte dos governantes.
Iniciemos pela analogia com o alfabeto chinês. Embora contestada por importantes especialistas, Benjamin Zimmer, um linguista norte-americano, apresentou a história do significado de weiji, em 1938, no editorial de um jornal em língua inglesa para missionários na China.
O uso do termo provavelmente teve o seu grande momento quando John Kennedy fez um discurso em Indianápolis no dia 12 de abril de 1959, antes, portanto, de assumir a presidência dos Estados Unidos. Na oportunidade, Kennedy afirmou que “quando escrita em chinês, a palavra crise é composta por dois caracteres: um representa perigo e o outro representa oportunidade“.
Kennedy usou sucessivas vezes essa ideia como recurso retórico nas suas mensagens, e o mesmo foi apropriado por Richard Nixon e outros políticos, sendo imitados por consultores motivacionais e palestrantes do mundo dos negócios. Condoleezza Rice, por exemplo, usou essa interpretação durante as discussões sobre o conflito israelo-palestino, em 2007. Al Gore também fez uso dessa argumentação, tanto no seu testemunho na “U.S. House of Representatives” do Congresso dos Estados Unidos (Comitê de Energia e Comércio), como no seu discurso de agradecimento, ao receber o Prêmio Nobel da Paz, em 2007.
A palavra chinesa para “crise” (weiji ou wei-chi) é muitas vezes invocada em palestras e textos motivacionais de autoajuda junto com a declaração de que esses dois caracteres representam “risco” ou “crise” e “oportunidade”. Porém, essa tradução pode ser um tanto falaciosa, uma vez que o caractere jī, isoladamente, não significa necessariamente “oportunidade”.
Independentemente da validade dessa associação, Maílson lembrou em sua palestra que na história recente da economia brasileira, por três vezes testemunhamos fases de crescimento − mais ou menos duradouras − que vieram depois de momentos de crise acentuada.
A primeira delas ocorreu em 1964, quando a economia brasileira conseguiu reverter a grave situação pré-existente, criando as condições para o crescimento acelerado verificado posteriormente. A segunda, trinta anos depois, teve lugar em 1994, após a implantação do Plano Real, que pôs fim a um período em que a nossa economia conviveu com o perverso tripé “estagnação prolongada, inflação crônica e crise das dívidas”. O terceiro, por fim, aconteceu a partir de 2016, depois de dois anos de crescimento negativo no segundo mandato de Dilma Rousseff.
Reportando-nos a essas três ocasiões, é possível identificar a existência de governantes que tinham vontade e liderança para comandar o processo de reversão da crise e início da recuperação.
Em 1964, o presidente Castelo Branco, deu total apoio à equipe econômica comandada por Octávio Gouveia de Bulhões e Roberto Campos a fim de fazer as reformas necessárias para pôr fim à grave crise em que o País se encontrava no governo de João Goulart, criando as condições para o crescimento acelerado do período 1968-1974, chamado por muitos de “milagre econômico”.
Além da vontade e da liderança de Castelo Branco, e da competência dos dois ministros à frente das Pastas da Fazenda e do Planejamento, Maílson ressaltou a importância do IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), um think tank que esteve na articulação de uma série das ações de política econômica então adotadas.
Em 1994, Itamar Franco, que assumira a Presidência da República com o afastamento de Fernando Collor, nomeou Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fazenda, com a recomendação de acabar com a inflação elevada que há muito tempo assolava o País, prejudicando a população como um todo, em especial os setores mais desfavorecidos, extremamente penalizados graças ao imposto inflacionário.
Tendo essa incumbência, Fernando Henrique constituiu uma equipe econômica que elaborou o Plano Real, conseguindo, no curto prazo, a redução do nível de inflação e, na sequência, a sua própria eleição para a Presidência da República. Com isso, garantiu a continuidade da estabilização da economia por meio do chamado tripé macroeconômico, conjunto de três diretrizes que orientaram a política econômica composto por metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário.
Entre os principais formuladores do Plano Real, muitos dos quais integrantes da equipe econômica do governo FHC, destacam-se Pedro Malan, Pérsio Arida, André Lara Resende, Gustavo Franco e Edmar Bacha.
A crise que se estendia desde a década de 1980 foi, portanto, enfrentada pela determinação dos presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, que combinaram vontade e liderança na gestão.
Em 2016, Michel Temer assumiu a Presidência para completar o restante do segundo mandato de Dilma Rousseff, que durou cerca de 1 ano e 8 meses. Iniciado em 1º de janeiro de 2015, foi interrompido pelo afastamento provisório em 12 de maio de 2016 e concluído com a perda definitiva do cargo pelo processo de impeachment em 31 de agosto de 2016. Ao deixar a Presidência, Dilma Rousseff havia conduzido o Brasil à maior crise de sua história, com dois anos consecutivos de crescimento econômico negativo. Temer revelou vontade e liderança para reverter o quadro crítico em que o Brasil se encontrava e retomar o nível de atividade econômica, possibilitando a recuperação da taxa positiva de crescimento ao final dos dois anos e sete meses de seu mandato.
Para tanto, seguiu um programa econômico e político concebido em outubro de 2015 pelo PMDB (atual MDB). Chamado de “Uma Ponte para o Futuro”, serviu como diretriz central para o governo de Temer. O documento propunha reformas liberais com o objetivo de conter a crise econômica, ajustar as contas públicas e retomar o crescimento do País. No exercício da presidência, Temer contou com uma equipe econômica competente, capitaneada por Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda e Ilan Goldfajn no Banco Central.
No atual cenário brasileiro, caracterizado pela economia com elevado desequilíbrio fiscal e acentuada polarização política, temos dois pré-candidatos que aparecem à frente nas pesquisas eleitorais. Nenhum deles, no entanto, parece reunir vontade e liderança em doses suficientes para tirar o País da situação em que se encontra e conduzi-lo à retomada do crescimento em bases sustentáveis: Lula, por ter demonstrado diversas vezes não ter vontade de adotar políticas econômicas que levem ao equilíbrio fiscal; Flavio Bolsonaro, por sua vez, pela falta de liderança típica de alguém sem nenhuma experiência em função executiva.
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